top of page
criativos 2022.png

 O Brasil que Mora em Nós: Identidade, Cultura e Futuro

 David Gertner, Ph.D.
 David Gertner, Ph.D.

Não aparece nos noticiários. Não cabe nas estatísticas. Não grita nas redes sociais. Não disputa espaço nos palanques. É um Brasil mais discreto, quase tímido, feito de lembranças que chegam sem pedir licença: o cheiro do café passando, a conversa na calçada, a bola rolando na rua, o portão aberto, o almoço de domingo, a música vindo de alguma janela, o vizinho que sabia nosso nome, a criança que podia correr sem que todos os adultos prendessem a respiração.


Talvez esse país nunca tenha sido exatamente como o lembramos. A memória, sabemos, tem seus filtros. Ela ilumina algumas coisas, apaga outras, suaviza dores, reorganiza o passado com a delicadeza de quem tenta proteger o coração. Mas nem toda saudade é ilusão. Às vezes, a saudade é uma forma de verdade. Ela nos mostra não apenas o que existiu, mas aquilo de que ainda sentimos falta — e que, por isso mesmo, talvez ainda possa existir.


Sentimos falta de um Brasil menos assustado.


Um país onde a diferença não precisava virar ameaça. Onde discordar não significava odiar. Onde o outro ainda podia ser apenas o outro — não um inimigo a ser vencido, humilhado ou destruído. Um país onde pensar diferente não exigia romper laços, onde famílias podiam sentar à mesma mesa sem transformar cada conversa em trincheira, onde a política ainda não havia invadido todos os cantos da alma.


Talvez esse país também nunca tenha existido plenamente. Mas, se sentimos falta dele, é porque alguma parte de nós ainda sabe que ele deveria existir.


Há uma ternura perdida no modo como falamos do Brasil. Durante muito tempo, mesmo com todas as suas contradições, havia uma ideia de pertencimento que nos sustentava. O Brasil era problema, mas também promessa. Era confusão, mas também encontro. Era atraso, mas também música. Era desigualdade, mas também afeto. Era um país que parecia sempre à beira de se tornar melhor.


Hoje, muitas vezes, parece à beira de se esquecer de si mesmo.


Não se trata de idealizar o passado. O Brasil de ontem também teve injustiças, violências, exclusões, silêncios e desigualdades profundas. Não há inocência perdida a recuperar. Há, talvez, uma decência a reconstruir.


E reconstruir um país começa antes das grandes reformas. Começa no modo como olhamos para o outro. No modo como falamos. No modo como discordamos. No modo como educamos nossos filhos. No modo como tratamos quem nos serve, quem pensa diferente, quem erra, quem sofre, quem não tem voz. Começa quando recusamos a crueldade como forma de inteligência, o cinismo como prova de lucidez, o ódio como substituto da coragem.


Acordar o Brasil talvez não seja gritar mais alto.


Talvez seja escutar melhor.


Escutar o que ainda resta de humano em nós antes que o ruído cubra tudo. Escutar a criança que fomos, o país que imaginamos, a promessa que herdamos sem saber direito de quem. Escutar o silêncio das ruas que já não são as mesmas, das praças que perderam confiança, das conversas que foram interrompidas pelo medo.


O Brasil que ainda mora em nós não é um lugar geográfico. É uma possibilidade moral.


Ele aparece quando alguém escolhe a gentileza em vez da agressão. Quando uma comunidade se organiza para cuidar do que o Estado esqueceu. Quando um professor insiste. Quando um médico atende com humanidade. Quando um vizinho ajuda. Quando um cidadão se recusa a transformar o adversário em inimigo. Quando alguém, mesmo cansado, ainda acredita que o país não precisa ser apenas aquilo que nos entristece.


Talvez a pergunta não seja apenas: que país o Brasil se tornou?


Talvez a pergunta mais difícil seja: que brasileiros nós nos tornamos dentro dele?


Porque nenhum país se perde de uma vez. Ele se perde aos poucos, em pequenas permissões diárias. Quando aceitamos a mentira porque nos convém. Quando rimos da humilhação do outro. Quando naturalizamos a violência. Quando desistimos da educação. Quando confundimos esperteza com inteligência. Quando deixamos de nos espantar.


Mas também nenhum país se reconstrói de uma vez.


Ele se reconstrói em pequenos gestos de presença, responsabilidade e cuidado. Na palavra menos cruel. Na conversa que não vira guerra. Na memória que não serve apenas para lamentar, mas para orientar. Na coragem de dizer: ainda podemos ser melhores do que isto.


A saudade, quando não paralisa, pode ser uma bússola.


Ela não nos pede para voltar ao passado. Pede que salvemos do passado aquilo que ainda pode iluminar o futuro: a confiança, a convivência, a hospitalidade, a alegria sem brutalidade, a diferença sem ódio, a liberdade sem desprezo pelo outro.


O Brasil que ainda mora em nós talvez esteja adormecido, ferido, cansado. Mas não desapareceu.


Ele vive em cada pessoa que ainda se recusa a aceitar que medo, grosseria, indiferença e ódio sejam o destino natural de um povo.


Acorda, Brasil.


Não para lembrar o que fomos.


Mas para descobrir, antes que seja tarde, o que ainda podemos ser.



David Gertner, Ph.D., é escritor e ensaísta. Doutor pela Northwestern University. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon. Prepara dois novos livros para lançamento em 2026: A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim) e As Dimensões do Silêncio e do Tempo. Escreve sobre ética, identidade, tecnologia e a condição humana. Mais em www.davidgertner.com

 

CRIATIVOS! atua na articulação entre cultura, economia criativa e tecnologia aplicada.

Organiza informações, experiências e projetos em contexto, conectando produção cultural, pesquisa, políticas públicas e mercado.

O portal opera como um laboratório editorial e um hub de inteligência aplicada, na forma de Think-and-Do Tank – Pensar e Fazer Brasileiro - apoiando eventos, iniciativas territoriais e ações concretas no campo cultural e criativo.o eventos, iniciativas territoriais e ações concretas no campo cultural e criativo.

 

Receba o RADAR CRIATIVOS (semanal)

Bastidores, análises e oportunidades da economia criativa.

Ou, se preferir, envie um email para:playeditora@gmail.com(com o assunto: QUERO RADAR)

 

Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade


Músicas em Homenagem ao Rio de Janeiro, na Spotify / Cedro Rosa



Comentários


+ Confira também

Destaques

Essa Semana

bottom of page