O Inteligente
- José Luiz Alquéres

- há 2 dias
- 3 min de leitura

Estamos no ano de 2030. Joãozinho completou 17 anos e já não podia mais se esquivar da conversa que seus pais vinham tentando ter com ele havia muito tempo.
Sentados à mesa de jantar, Joãozinho, com seu inseparável iPhone na mão, terminava a refeição quando o pai perguntou:
— Joãozinho, afinal, o que você pretende estudar?
Ele respondeu:
— Não pretendo fazer faculdade. Não é mais necessário. Posso fazer o que quiser sem perder quatro ou cinco anos de boas praias em troca de nada.
A revelação caiu como uma bomba sobre o casal.
O pai era um conceituadíssimo engenheiro civil, especialista em cálculo estrutural — um homem cujo nome estava associado a grandes obras de engenharia. Culto, era também professor da universidade federal. A mãe, igualmente excelente profissional, era uma pediatra renomada, com vasta clientela privada e participação ativa em campanhas filantrópicas.
Enquanto os pais tentavam se recompor da resposta bombástica, questionando a decisão do filho, Joãozinho explicava seus motivos em frases curtas.
— Papai, veja só. Digamos que eu queira ser engenheiro, construtor de edifícios. Eu simplesmente pego meu iPhone e peço ao ChatGPT para identificar um terreno à venda no bairro e na cidade que eu quero. Identificado o terreno, se o preço anunciado pelo corretor for satisfatório, uso o Google Maps para verificar a vizinhança e a rua.
Se tudo parecer interessante, insiro os dados do terreno — dimensões, declive — no programa Architek e peço que ele projete um edifício de quatro apartamentos por andar, com dez andares. O programa perguntará em qual cidade fica o terreno e fará o projeto automaticamente de acordo com o código de obras local. Pode, por exemplo, avisar que o edifício não pode ter mais de seis andares.
Consulto então o programa Pró-Imob, que calculará o custo da construção e o preço sugerido de venda dos apartamentos com base nos dados já inseridos (bairro, cidade etc.). Se o negócio se mostrar atrativo, ao mesmo tempo em que eu contato os vendedores e notifico meu advogado para tratar da escritura, registro e memorial de incorporação, peço ao programa Pró-Eng que detalhe as plantas de arquitetura, as instalações elétricas e hidráulicas e o cálculo estrutural.
Também solicito o orçamento das quantidades de materiais, utilizando acabamentos padrão — revestimentos, azulejos, torneiras etc. Com esses elementos enviados a uma construtora de boa reputação, faço uma tomada de preços e, com um contrato elaborado por advogados especializados, assino a construção e posso partir para as vendas. Tudo automaticamente.
Poupo vocês do restante da conversa com o pai.
Joãozinho então virou-se para a mãe:
— Se, por acaso, eu tiver um filho e ele apresentar algum sintoma de doença, simplesmente o filmarei e enviarei, com dados complementares — temperatura, movimentação, algum evento estranho — para o programa Pró-Med, que identificará o problema na hora. Sem filas no SUS ou consultas com pediatra, com espera de quinze dias ou um mês. Imprimo a receita e peço os medicamentos pelo Rappi.
Não vou me estender mais. Não existem mais profissões. Alguns Programadores farão esses softwares/aplicativos. De tempos em tempos, aparecerão pesquisas apontando os melhores, e eu navegarei nesse novo mundo da inteligência artificial.
Embasbacados, os pais — que haviam adquirido sólida cultura em suas áreas específicas ao longo de anos de estudo e sacrifício — não souberam o que responder.
A artificialidade do conhecimento do filho parecia mais adequada à realidade do mundo do que o conhecimento real e profundo dos pais que o haviam criado.
Esse quadro de ficção já é aplicável hoje em dia — e todos nós, avós, pais e filhos, precisamos ressignificar o que sabemos e preservar o humanismo em todas as nossas atividades, sem ignorar os progressos científicos.
É uma tarefa sem precedentes e sem modelos anteriores, que desafia as novas gerações.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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