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O Meio é a Mensagem

 


Numa das excursões à França de que fiz parte, para visitar os sites Proustianos sob a guia de quem era o professor mais conhecido no assunto aqui nos Estados Unidos, ouvi uma senhora que era parte do grupo, comentar com ele: “Imagina o que não teria feito Proust num computador!”


O professor ficou em silêncio, mas não a contrariou. Eu, por outro lado, não consegui me calar e disse: “Se Proust tivesse acesso a computadores, ele não seria mais Proust”. O que melhor ilustra isso é a profunda afirmação de Marshall McLuhan nos anos 60: O meio é a mensagem.

 

   A mensagem, nesse caso, seria o que Proust escreve, e o meio seria o computador, o que transmite a mensagem. Chamando atenção para o fato de que nós subestimamos o meio através do qual recebemos o conteúdo ou mensagem, por assim dizer, McLuhan chega a afirmar que o conteúdo nem importa muito diante do meio. Se assistirmos, por exemplo, uma palestra espiritual, um filme violento, e um discurso político, no mesmo fluxo de vídeo curto de alta velocidade, baseado em algoritmo que alimenta rolagem infinita, gratificação instantânea e apelos de fórmulas emocionais, este modo de acesso a tais conteúdos diversos vai moldar nossa mente com mais poder do que a diferença de assunto entre eles.


Um sermão no TickTock e um ballet, por exemplo, compartilham a mensagem mais profunda de, no seu conteúdo ultracurto, sequestrar nossa atenção e liberar dopamina em pequenas doses, nos empurrando a esperar estimulação rápida e a termos dificuldade com o que é profundo, com a lentidão que requer, e com o silencio.

 

   Qualquer tecnologia nova aumenta alguma capacidade humana, mas ao mesmo tempo altera o ritmo e o padrão da vida diária. No final, tal como em ‘O feitiço contra o feiticeiro’, somos nós que, mesmo sem saber, obedecemos `a tecnologia.  Considerando, por exemplo, a IA, essa obsessão tecnológica de nossos tempos, vemos que, se por um lado, ela e os smartphones promovem respostas rápidas, conectividade constante e consumo imediato de pequenos conteúdos, por outro, o fazem em detrimento da contemplação, da leitura profunda e prolongada ou da oração. Este dá cá e toma lá, é, portanto, a mensagem, acima de qualquer um dos pequenos conteúdos transmitidos.


   O avanço da tecnologia em geral promove a velocidade `a custa da profundidade, o imediato `a custa da reflexão, da imaginação, da fantasia, e do próprio amor. Antes do telefone, as pessoas se comunicavam através de cartas. Os apaixonados ficavam ainda mais apaixonados ao ter de esperar e fantasiar a carta que gostariam de receber de quem amavam. Para uma conversa a viva-voz, era necessário solicitar um encontro por carta, esperar o tempo que ela levaria para chegar ao recipiente, e o tempo que levaria para a resposta dele ou dela chegar. O tempo em geral passava mais devagar, e podia ser preenchido com o pensamento. Por outro lado, hoje ninguém tem estímulo para pensar e ainda menos refletir.

 

Tudo que as redes sociais de massa tocam é transformado em mercadoria. O misticismo se torna “conteúdo”, a oração vira vídeo, a contemplação vira aplicativo. O encontro supostamente romântico entre duas pessoas parece uma união de dois produtos industriais, através dos sites em que elas se anunciam e exibem suas características entre milhões de outras se oferecendo lado a lado naqueles frios e pequenos espaços digitais, como em prateleiras de supermercado competindo pelo cliente.


    Proust era holista, no fundo de cada experiência havia para ele um conjunto de sensações físicas que eram tao ou mais importantes do que a apreensão intelectual. Ele tanto valorizava a dimensão física e palpável a ponto de considerá-la parte integral da experiência da leitura de um livro. Nesse caso, a textura das páginas do volume particular em que se lê a narrativa conta, assim como o período em que se leu, e o lugar onde se leu, cujas imagens serão sem dúvida associadas àquela leitura e ao estado de espírito do leitor, como o escritor não cansa de exemplificar no relato de suas leituras.


Mas Proust respeitava a particularidade, a unicidade acima da seriação.  A vida, o irrepetível.

 

Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade


Leia outros artigos de Eleonora Duvivier no portal CRIATIVOS!


2 comentários


Sonali Maria
Sonali Maria
18 de jan.

Li.McLuhan na adolescencia, atraves do pai avido de leitura que me passou esse habito. E li Chaim Samuel Katz em seu ancestral Dicionario de Comunicacao e o.livro basico com as teorias de Saussure. Concordo muito com voce.

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Obrigada, fico orgulhosa

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