O Veneno Invisível
- David Gertner

- há 2 horas
- 4 min de leitura

Há encontros que ampliam nossa humanidade. Outros, quase sem percebermos, começam a diminuí-la. A maior sabedoria talvez esteja em reconhecer a diferença antes que seja tarde.
Ao longo da vida, encontramos pessoas cuja companhia nos transforma silenciosamente para melhor. Depois de uma conversa com elas, voltamos para casa levando novas perguntas, novas ideias ou simplesmente uma compreensão mais generosa do mundo. Nem sempre concordamos com o que dizem. Muitas vezes, as divergências são profundas. Ainda assim, algo precioso acontece: saímos desses encontros um pouco mais curiosos, mais tolerantes e mais humanos.
Infelizmente, existe também o movimento oposto.
Há convivências que produzem um desgaste quase imperceptível no início. Não porque sejam marcadas por grandes conflitos, mas porque transformam toda diferença em confronto, toda discordância em ofensa e toda conversa em uma disputa na qual compreender deixa de ser importante. Pouco a pouco, já não ouvimos para aprender. Ouvimos apenas para responder. A curiosidade cede lugar à irritação. A boa-fé é substituída pela suspeita. Sem perceber, começamos a reproduzir exatamente os comportamentos que um dia despertaram nosso desconforto.
É assim que o veneno se espalha.
Seu efeito mais perigoso não está nas palavras que nos ferem, mas na capacidade de alterar, lentamente, a maneira como passamos a olhar os outros. A agressividade desperta agressividade. O desprezo alimenta o desprezo. A humilhação desperta o desejo de humilhar. O que começou como uma experiência isolada transforma-se, aos poucos, em uma nova forma de habitar o mundo.
Esse fenômeno ajuda a explicar por que determinadas famílias, grupos, empresas e até sociedades inteiras parecem perder a capacidade de dialogar. O problema raramente está na existência de opiniões diferentes. A diversidade de ideias sempre foi uma das maiores riquezas da experiência humana. O verdadeiro risco surge quando deixamos de enxergar um ser humano diante de nós e passamos a ver apenas um adversário, um rótulo ou um obstáculo a ser vencido.
Existe uma crença generosa segundo a qual devemos permanecer em todas as relações, insistir em todos os diálogos e jamais desistir de convencer quem está diante de nós. Em muitas situações, esse esforço vale a pena. Nenhuma convivência atravessa o tempo sem paciência, escuta e disposição para perdoar. Mas a experiência também ensina que nem todo ambiente favorece essas virtudes. Há lugares onde a boa-fé passa a ser interpretada como fraqueza, a gentileza como ingenuidade e o respeito como sinal de rendição. Permanecer, nesses casos, deixa de fortalecer o diálogo e passa apenas a prolongar o desgaste.
Afastar-se, nessas circunstâncias, não significa desistir das pessoas. Significa reconhecer que também somos vulneráveis à influência dos ambientes que frequentamos. Assim como existem convivências capazes de despertar o que há de melhor em nós, existem outras que, pouco a pouco, alimentam o ressentimento, o cinismo e a desconfiança. Proteger-se não é um gesto de intolerância. Às vezes, é a única maneira de preservar a capacidade de continuar acreditando nas pessoas.
No fim, não controlamos o comportamento dos outros. Controlamos apenas aquilo que permitimos que esse comportamento desperte em nós. Essa talvez seja uma das responsabilidades mais difíceis da vida adulta. Não impedir que o mundo nos machuque — isso quase nunca está ao nosso alcance —, mas impedir que suas feridas determinem a forma como passaremos a tratar aqueles que ainda encontraremos pelo caminho.
O veneno mais perigoso não é aquele que entra em nós. É aquele que sai de nós em direção ao próximo.
David Gertner, Ph.D., é escritor, ensaísta e professor universitário aposentado. Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu, vive há mais de três décadas nos Estados Unidos. Doutor pela Northwestern University, escreve sobre sociedade, comportamento humano, ética e cultura. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon.com.br, prepara o lançamento de A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim) e mantém o website www.davidgertner.com�.
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