O Verdadeiro Nome das Profissões
- David Gertner

- há 4 horas
- 3 min de leitura

Um amigo que conheci em uma plataforma digital dedicou toda a sua vida à engenharia. Em uma de nossas conversas, escreveu uma frase que não consegui esquecer:
— Passei a vida construindo pontes.
Talvez estivesse falando de concreto, aço e cálculos. Talvez não.
Naquele instante, a engenharia deixou de me parecer apenas uma profissão. Tornou-se uma metáfora.
Construir pontes nunca foi apenas unir duas margens. É aproximar pessoas, conectar mundos, permitir encontros que antes pareciam impossíveis.
Foi então que me ocorreu uma pergunta.
Talvez tenhamos dado às profissões nomes excessivamente técnicos.
Eles descrevem aquilo que fazemos. Mas raramente revelam aquilo que realmente tornamos possível.
Durante quase toda a minha vida, ensinei. No primeiro dia de aula costumava dizer aos meus alunos que, se ao final do semestre eles fossem um pouco mais analíticos, mais flexíveis e mais tolerantes, eu consideraria meu trabalho cumprido.
As teorias mudariam. Os programas de computador seriam substituídos. Grande parte do conhecimento técnico envelheceria.
Mas a capacidade de pensar criticamente continuaria acompanhando aquelas pessoas pelo resto da vida.
Talvez eu nunca tenha ensinado apenas um conteúdo.
Talvez tenha tentado cultivar pensamento.
Aos poucos comecei a imaginar que todas as profissões talvez escondessem um segundo nome. Um engenheiro constrói pontes. Um professor cultiva pensamento. Um médico restaura esperança. Um juiz procura reconstruir o equilíbrio quando a justiça se rompe. Um psiquiatra ajuda pessoas a reencontrarem partes de si mesmas que julgavam perdidas. Os meteorologistas passam a vida tentando convencer o futuro a nos avisar quando o perigo se aproxima. Os economistas continuam tentando compreender o futuro e, quando ele insiste em não colaborar, oferecem excelentes explicações sobre o passado — uma profissão que talvez exija inteligência, perseverança e uma boa dose de humildade. Os músicos são arquitetos do invisível. Os jardineiros cultivam o tempo. Os bibliotecários guardam a memória da humanidade. Os escritores ampliam o número de vidas que podemos viver. Os poetas dizem o indizível. E pais e mães talvez exerçam a profissão mais difícil de todas: construir futuros que jamais poderão habitar.
Foi então que compreendi que o verdadeiro nome de uma profissão talvez nunca seja aquilo que ela produz.
Seja aquilo que ela torna possível.
Passamos boa parte da vida perguntando às crianças o que elas querem ser quando crescerem. Engenheiro. Professor. Médico. Advogado.
Mas talvez essa nunca tenha sido a pergunta mais importante.
Talvez devêssemos perguntar:
O que você espera construir na vida das outras pessoas?
Porque, no fim, todas as profissões constroem alguma coisa. Algumas constroem edifícios. Outras constroem conhecimento, justiça, esperança, beleza ou memória. Pais e mães constroem futuros. E algumas, silenciosamente, constroem significado.
Os títulos pertencem aos diplomas. Os cargos pertencem às instituições.
Mas o verdadeiro nome de uma profissão nunca esteve escrito em um cartão de visitas. Sempre esteve escrito, discretamente, naquilo que deixamos uns nos outros.
David Gertner, Ph.D.
Nascido no Brasil e radicado há mais de três décadas nos Estados Unidos, é professor aposentado, escritor e ensaísta. Doutor pela Northwestern University, dedica-se a refletir sobre identidade, memória, ética, tecnologia e a condição humana. Autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, e de dois novos livros com lançamento previsto para 2026.
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