SEM PRESSA
- Leo Viana
- há 10 horas
- 6 min de leitura

O início do namoro não teve nada de surpreendente. Todos os que acompanharam os movimentos da Aninha e do Davi tinham certeza de que o match ia acabar acontecendo. Só não se sabia a forma como o processo ia terminar. Ambos eram confusos. Ela era médica plantonista com absoluta preferência pela noite. Nunca escondeu de ninguém que o que a estimulava eram as surpresas da emergência noturna.
Se, por um lado, sofria com os vitimados pela violência, por outro, não foram poucos os partos que fez, trazendo vidas à luz durante a madrugada e saindo mais feliz de manhã. O Davi era petroleiro, sondador, responsável pela perfuração de poços de petróleo em alto mar. Passava 15 dias longe de casa por mês. A dedicação que tinha ao trabalho chegou a fazer com que, em algumas ocasiões, permanecesse um mês embarcado.
A companhia proibia, mas ele já tinha conseguido trocar escalas mais de uma vez com outro colega, por sua própria conta e risco, a fim de terminar uma perfuração começada ou observar a primeira extração de um poço.
Conheceram-se de forma prosaica: Davi desembarcava do helicóptero num pequeno aeroporto, no mesmo momento em que a Aninha, após sair do plantão, esgotada, levava alguns parentes - do Nordeste em visita rápida - para um passeio de helicóptero. Queriam muito ver o Cristo Redentor do alto.
O mesmo hangar que abrigou a aeronave que trouxe os petroleiros era o local da sede da empresa que transportava turistas em voos panorâmicos.
O esbarrão foi casual. O Davi esqueceu no helicóptero uma pasta de documentos que precisava apresentar no escritório da empresa e teve que voltar ao hangar depois de já ter entrado no carro. A Aninha, que precisava resolver logo a burocracia do voo, estava aguardando no hangar a hora de decolar. Olharam-se despretensiosamente. Diante da mulher visivelmente cansada, o Davi não se conteve e perguntou se ela ia embarcar para uma plataforma, que ele havia chegado de uma, etc
A Aninha estava mais interessada em aproveitar os minutos possíveis para descansar, mas achou curioso que alguém a tivesse confundido com uma trabalhadora de plataforma. Seria o segundo voo de helicóptero de sua vida. O primeiro tinha sido num resgate de ferido, quando trabalhava em equipes de socorro rodoviário. Nunca tinha ido a uma plataforma e nem alimentava nenhuma vontade de passar dias em alto mar.
– Enjoava até na barca para Niterói, comentou com um leve sorriso.
A resposta da Aninha acendeu alguma coisa inexplicável no Davi. Talvez tenha sido o fato de ter achado muito engraçada a hipótese de alguém enjoar em 20 minutos de travessia de mar calmo.
Como não conseguia recuperar sua pasta de documentos sem falar com o piloto e ele não estava no local, a conversa avançou e acabou chegando a detalhes que os fizeram trocar telefones. A Aninha indicou um amigo, médico do trabalho, para o Davi, que falou sobre os males comuns dos embarcados. Nos minutos seguintes cada um resolveu sua questão pendente. Aninha se despediu do Davi e foi em direção a seus parentes que aguardavam ansiosos o sobrevoo do Rio. Davi encontrou o piloto e recuperou sua pasta e seus documentos importantes.
Teria 15 dias para tentar uma consulta com o médico indicado pela Dra. Aninha, a nova conhecida avessa ao balanço do mar.
Aninha também se impressionou com o Davi mas, no momento inicial, o cansaço a impedia de elaborar mais. Fez o voo para agradar aos parentes, levou-os ao hotel de volta e foi dormir para retomar a sua rotina de plantões e surpresas.
O telefone tocou alguns dias depois num momento desconfortável. Aninha acabara de perder um paciente, que deu entrada após uma queda de andaime. O politraumatismo foi fatal, ainda que ele tenha sobrevivido algumas poucas horas. A vibração do telefone foi o sinal para sair do torpor misto de estresse e tristeza daquele momento. Achou que fosse uma nova chamada para emergência e levantou-se para se encaminhar à entrada antes mesmo de pegar o telefone.
Quando pegou o aparelho descobriu que se tratava de um número desconhecido.
– Outro spam, pensou alto.
O telefone vibrou outra vez e mais outra. Atendeu de muito má vontade, mas reconheceu a voz do Davi, que queria agradecer a indicação e convidar para um café de agradecimento.
Aninha se surpreendeu com a ligação, comentou que o médico era um colega querido e muito competente, falou da alegria que tinha sentido com a ligação de agradecimento e deixou escapar que a ligação veio em boa hora, quando passava por um momento particularmente difícil, mas não estendeu a conversa. Disse que não sabia quando poderia parar para um café, agradeceu o convite e deixou a possibilidade aberta, mas sem definição objetiva.
O Davi não insistiu, mas aceitou a dificuldade dela, voltou a elogiar o médico e prometeu uma ligação no próximo desembarque. A essa altura, uma coisa que o inquietava era a possibilidade de ela ser casada ou ter um “compromisso sério” com alguém, como se diz nas redes sociais. Riu sozinho do pensamento intrusivo.
Aninha tocou a vida sem ansiar pela ligação, mas volta e meia lembrava da promessa com carinho.
Davi ligou dois meses depois, quando recebeu uma indenização decorrente de exames recomendados pelo médico amigo da Aninha. Dobrou a aposta. Convidou-a para jantar, lançando ainda a sugestão de que ela levasse o namorado, caso tivesse um. Não tinha. E aceitou, sorridente, o convite do novo amigo.
A feliz coincidência de estarem ambos de férias no período fez com que o jantar fosse apenas o primeiro de uma série de encontros. Afinidades gastronômicas, etílicas e de lazer foram descobertas e aproveitadas ao máximo. Ela, paradoxalmente, adorava frutos do mar. Ele chegou a temer que ela não gostasse. Ambos preferiam, no lazer, a montanha à praia. O gosto por vinhos era comum, com uma pequena discordância sobre Tannat ou Touriga Nacional. Ele preferia os vinhos uruguaios; ela, os portugueses. Nada que uma garrafa de cada vinho a cada refeição não atenuasse. A certa altura, amigos dele e dela passaram a acompanhar com curiosidade o relacionamento, que tinha se tornado uma afinidade capaz de gerar ciúmes em amigos mais antigos. A surpresa maior foi a descoberta pelos outros de que ainda não estavam namorando. Ao contrário, insistiam em afirmar que estavam “se conhecendo”.
A volta ao trabalho depois das férias foi um momento especialmente traumático para ambos. A tempestade em alto mar impediu a chegada do Davi à plataforma no dia planejado. Os voos foram suspensos sem data para retorno, mas com a possibilidade de que o retorno ocorresse a qualquer momento em caso de dispersão da tempestade.
O plantão da Aninha iniciou com um acidente de ônibus e grande número de feridos, praticamente em frente ao hospital, que ficava próximo a uma curva perigosa, em uma via expressa de alta velocidade.
Os dois refletiram imediatamente, diante dos infortúnios do primeiro dia de trabalho, sobre os momentos de amor desinteressado, a afinidade instantânea - ou nem tanto - e o conjunto de coisas que tinham feito tanto sentido durante as férias no convívio um com o outro, sem que houvesse coragem ou iniciativa decisiva para consumar uma relação sexual ou definir um status de namoro. Nem beijo!
Ligaram quase em simultâneo. A Aninha era menos tímida que o Davi. Convidou-o para ir à sua casa assim que soube, num aplicativo de notícias, que o embarque tinha sido adiado sine die. Terminaria o plantão, que prometia ser longo, mas daria um jeito de encontrar com o Davi. Disse a ele que a porta de casa estava estrategicamente encostada, sem chave, porque um eletricista de confiança faria um serviço lá de manhã. A partir da tarde ele podia chegar sem problemas, mesmo que ela ainda não estivesse lá.
Já ele, que tinha tido a mesma ideia, aceitou imediatamente o convite, esperou o tempo passar um pouco e partiu para lá.
No caminho recebeu outra ligação. Agora do chefe de equipe da plataforma, informando que o embarque tinha sido liberado e que todos deveriam se apresentar imediatamente. Havia uma nova e importante descoberta de petróleo, que exigia força máxima na plataforma.
No hospital, completamente absorvida pelos feridos do acidente, a Aninha também foi avisada de que alguns médicos faltaram e que o plantão se prolongaria por tempo indeterminado.
Nenhum dos dois teve coragem de avisar o outro.
Continuariam se conhecendo no mês seguinte.
Provavelmente com mais objetividade.
Rio de Janeiro, agosto de 2026.
Estou ouvindo a playlist Música Popular, Brasil.
Repertório ®CertCon, disponível para trilhas sonoras e downloads na Cedro Rosa.
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