OLHARES
- Leo Viana

- há 2 horas
- 3 min de leitura

Ensino fundamental, oitavo ano. Passeio depois da aula. Subiu atrás dela na escada rolante do shopping. Não havia maldade. Foi acaso. Cavalheirismo de adolescente. A saia, nos joelhos, não foi suficiente pra esconder completamente o que ela não tinha a intenção de mostrar e que também ele não tinha a intenção de ver naquela hora. O pior tinha acontecido antes: quando se cumprimentaram, no início das aulas do dia, o beijinho no rosto tinha resvalado nos lábios dela, molhados com glitter. Ele achou aquilo meio nojento.
Ensino médio, segundo ano. Um pouco mais crescidos. “Elas amadurecem primeiro”, ouviam sempre. Na outra turma havia até uma menina que saiu da escola grávida. Passeio depois de uma prova de simulação do Enem. Ela quer ser dentista. Ele, médico. Mesma turma, direcionada para biomédicas. Cervejaria nova perto da escola. Comemoração de bom desempenho. Bebem - escondidos - uma cerveja aromatizada, quase um refrigerante levemente alcoólico. Mereciam. Não faziam sempre isso. Era caro. Sempre tiveram bolsa em boas escolas pelo bom desempenho, mas mesadas escassas. Cada um de um canto da cidade, estudaram juntos desde muito tempo.
Na hora de pegar o ônibus, ela teve leve tontura. Talvez efeito do álcool, talvez só do estresse pós prova, apesar da certeza de boas notas. Ele ajudou. A blusa fina revelou parte do sutiã leve e bonito. Não houve nenhuma intenção, muito pelo contrário. A situação era de desconforto dela e ele não pensava em nada mais que isso. Mas viu e achou lindo.
Centro de Ciências da Saúde, universidade federal. Aula conjunta de Bioética. Ambos participavam ativamente da aula, fazendo considerações relevantes. Não se viam mais com a mesma frequência. Cursos distintos, estágios distintos. O reencontro foi diferente do previsto.
Eram adultos já. Nunca se perderam de vista completamente, mas a perda da rotina comum fez rolar uma rápida estranheza. Olhares diferentes dos anteriores. Lembranças de um tempo de inocência e ternura. As atribuições e responsabilidades de agora tornavam tudo mais grave, mais soturno, menos agradável. Ela, ainda estudante, já coordenava um grupo de combate ao negacionismo científico. Ele nem imaginava que isso existisse ali na universidade.
Ele teve a lembrança da escada rolante. E principalmente dos lábios molhados naquele beijo involuntário.
Ela lembrou de um sem número de vezes em que prestou alguma atenção naquele menino bobo, mas inteligente, filho dos amigos dos pais dela. Ela amadureceu antes, tinha certeza disso, mas ele tinha se tornado um homem muito interessante.
No final das atividades daquele dia de reencontro, - e era uma sexta! - saíram juntos com outros colegas para uma happy hour animada, com samba e cerveja.
Nenhum dos dois viu nada demais ali, em princípio. A antiga conexão parecia ter se perdido em meio às novas amizades. Homens e mulheres interessantes se juntaram às suas histórias.
Parecia não haver mais detalhe de roupa íntima ou algum tipo especial de comportamento que fizesse despertar a atenção de um pelo outro.
Ela notou e sentiu. Ele também.
Buscaram-se.
Ela foi ao banheiro, trocou a blusa e voltou com a alça do sutiã de bom gosto visível.
Ele notou e não comentou, mas entendeu o recado.
Ela saiu na frente, sem olhar pra trás.
Ela tinha mesmo amadurecido primeiro.
Ele sempre soube.
Rio de Janeiro, agosto de 2026.
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