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Orelha e Deus

 

O que mais me faz chorar é ver o vídeo do cachorro Orelha pulando nas ondinhas do mar, com aquela ingenuidade quase bobinha de tamanha entrega a uma felicidade que lhe escorria pelo corpo sem que ele pudesse aprisionar. O poder de sentir tal felicidade pelo que não se possui, pelo que passa junto com a água do mar, se chama Coragem. A capacidade de se entregar à fluidez de um momento fugaz, ao que não se pode garantir nem por mais um minuto, é o próprio Desapego. E a plenitude dessa entrega se chama Humildade.


   Na sua coragem de se entregar ao que nada possuía, nem dono, nem lugar cativo na natureza, nem casa dentro de casa humana, Orelha tinha tudo. No movimento das ondinhas que nunca param, nunca se cristalizam, sob a transitória luz do sol e o azul passageiro do Céu, feliz em tudo que não podia agarrar, possuir, comprar, ou marcar território, Orelha tinha Deus, o Tudo e o Nada ao mesmo tempo.


  Tinha o pão nosso de cada dia, sem promessa nenhuma para o amanhã, e também sem medo desse futuro. Acho que o caso de Orelha me ensinou porque Jesus prezava os pobres e colocava a beleza dos lírios acima das vestimentas do rei. E porque Ele afirmou para os seus apóstolos que o Pai sabe do que necessitamos, antes que precisemos lhe pedir. Pois pedir alguma coisa é querer possui-la, enquanto saber receber é viver a gratidão.  


  Lendo São João da Cruz, entendi também que a aparente ausência do divino, o estado de despojamento de tudo e todos, de aplausos de outros e de proteção garantida pelos absurdos papeis que a sociedade legaliza, é parte do caminho para Deus. O estado contrário se trata justamente da arma dos medrosos; a sua distância de Deus e da verdadeira felicidade. Mas no que  São João chamou "A noite escura da alma", quando a pessoa se sente abandonada pelo Criador, e as criaturas se revelam apenas como desvios d’Ele, é justamente quando Ele começa a se manifestar. 


Há os que gostem de um raciocínio mais lógico e menos teológico. Estes devem apreciar como Hegel mostrou que o tudo, ou o Ser absoluto, e o nada vêm a dar no mesmo por serem ambos não qualitativos. Mas Hegel os opôs para criar a síntese dos dois, na sua dialética. Transformou a identificação tão brilhante que fizera entre eles para resultar no Vir a Ser; o mundo dos não-orelha, dos medrosos, e também o dos pérfidos e covardes. O mundo em que as exceções a estes são discriminadas e intoleráveis, quando não, assassinadas. O mundo temporal.


   Na linha de Miguel de Unamuno, acho mesmo que Deus sofre conosco. Mas não só isso, acho que Ele é sacrificado constantemente, por não ter medo e deixar rolar. Pelo fato de, ao invés de aprisionar, dar liberdade: Ser liberdade. Deus é o Tudo no nada. Vive o eterno no que não possui e nem quer possuir; na coragem de deixar que se distancie de Si. Por causa da sua bondade infinita. Consegue Ser no que passa e que por isso mesmo vem a ficar com Ele pra sempre.


   Como Orelha, o cãozinho que foi torturado e assassinado e é o Seu Filho animal, Deus é entrega extrema: morte, sacrifício e renascer: Cada ondinha nova que brincava com Orelha, se diluía, e nessa liberdade, ficava eterna. A morte e o sacrifício são a mãe e o pai da eternidade. Deus sofreu com você, Orelha, você comungou com Ele.


   O despojamento dos místicos, o seu sofrimento ao passarem pela “Noite Escura da Alma”, a qual  São João da Cruz descreveu como um aparente abandono por Deus, é quando a alma se sente esquecida e largada no escuro. Mas é então que o nada começa a virar o tudo. É então que o Criador se manifesta, e as ondinhas de Orelha vão brincar com ele no céu. Não é à toa que, de acordo com Rumi, a ferida é por onde a luz vai entrar.


Assim, naquele abismo de dor que senti por causa do que fizeram com Orelha, no fundo daquela escuridão onde só vi o mundo como absoluta falta de sentido, tão terrível ausência, senti uma pequena flama da presença do divino. Um sinal desse Amor sublime. 


  Deus está contigo, Orelha! Você foi o seu Filho animal.

Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade


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