Os Invisíveis da Sala ao Lado
- David Gertner

- há 5 horas
- 2 min de leitura

Eles não fazem barulho.
Não lideram trends.
Não ocupam os holofotes das redes nem os palcos do debate público.
Estão ali — mas quase nunca são vistos.
Vivemos numa cultura que celebra a performance, a visibilidade e a juventude permanente. O valor de alguém parece cada vez mais ligado à sua capacidade de aparecer: produzir, opinar, reagir, competir, provar relevância. Nesse cenário, quem desacelera, adoece, envelhece, se recolhe ou simplesmente não se adapta ao ritmo imposto passa a ocupar uma zona silenciosa — uma espécie de sala ao lado, onde a sociedade raramente entra.
Não se trata apenas de exclusão econômica. Trata-se de invisibilidade simbólica.
Os invisíveis são os que já contribuíram e hoje não são mais “úteis” no sentido produtivista do termo. São os que carregam histórias, mas não têm mais plateia. São os que vivem perdas, lutos, limitações, cansaços — num mundo que só aceita narrativas de superação rápida e sucesso exibível.
Há algo profundamente desconfortável neles.
Eles nos lembram daquilo que preferimos negar: a fragilidade, a finitude, o fato de que ninguém permanece central para sempre. Ao ignorá-los, tentamos afastar a ideia de que também podemos, um dia, ocupar esse mesmo lugar de esquecimento.
Mas o preço dessa negação é alto.
Uma sociedade que só reconhece quem brilha perde a capacidade de escutar. E uma sociedade que não escuta deixa de aprender com a experiência, com o tempo, com a memória — justamente os recursos mais escassos em um mundo acelerado.
Talvez o problema não esteja nos invisíveis, mas em nós.
Na nossa dificuldade de sustentar a presença diante do que não seduz, não entretém, não rende curtidas. Na nossa pressa em virar a página antes de compreender a história. Na nossa obsessão por novidade, como se o valor humano tivesse prazo de validade.
Resgatar os invisíveis não é um gesto de caridade.
É um gesto de lucidez.
É reconhecer que uma cultura só é verdadeiramente criativa quando sabe olhar para além do palco. Quando entende que o que não aparece também molda quem somos. Quando aceita que o silêncio, a pausa e a escuta são forças — não falhas.
Talvez o verdadeiro desafio contemporâneo não seja inventar o novo a qualquer custo, mas reaprender a ver quem continua ali, mesmo quando deixamos de olhar.
Os invisíveis da sala ao lado não desapareceram.
Fomos nós que fechamos a porta.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
Sobre o autor
David Gertner, Ph.D. é professor aposentado, escritor e ensaísta. Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu, vive há mais de três décadas nos Estados Unidos. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David (Amazon) e escreve sobre identidade, memória, ética, tecnologia e a condição humana.
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