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Os Invisíveis da Sala ao Lado

David Gertner, Ph.D.
David Gertner, Ph.D.


Eles não fazem barulho.

Não lideram trends.

Não ocupam os holofotes das redes nem os palcos do debate público.


Estão ali — mas quase nunca são vistos.


Vivemos numa cultura que celebra a performance, a visibilidade e a juventude permanente. O valor de alguém parece cada vez mais ligado à sua capacidade de aparecer: produzir, opinar, reagir, competir, provar relevância. Nesse cenário, quem desacelera, adoece, envelhece, se recolhe ou simplesmente não se adapta ao ritmo imposto passa a ocupar uma zona silenciosa — uma espécie de sala ao lado, onde a sociedade raramente entra.


Não se trata apenas de exclusão econômica. Trata-se de invisibilidade simbólica.


Os invisíveis são os que já contribuíram e hoje não são mais “úteis” no sentido produtivista do termo. São os que carregam histórias, mas não têm mais plateia. São os que vivem perdas, lutos, limitações, cansaços — num mundo que só aceita narrativas de superação rápida e sucesso exibível.


Há algo profundamente desconfortável neles.


Eles nos lembram daquilo que preferimos negar: a fragilidade, a finitude, o fato de que ninguém permanece central para sempre. Ao ignorá-los, tentamos afastar a ideia de que também podemos, um dia, ocupar esse mesmo lugar de esquecimento.


Mas o preço dessa negação é alto.


Uma sociedade que só reconhece quem brilha perde a capacidade de escutar. E uma sociedade que não escuta deixa de aprender com a experiência, com o tempo, com a memória — justamente os recursos mais escassos em um mundo acelerado.


Talvez o problema não esteja nos invisíveis, mas em nós.


Na nossa dificuldade de sustentar a presença diante do que não seduz, não entretém, não rende curtidas. Na nossa pressa em virar a página antes de compreender a história. Na nossa obsessão por novidade, como se o valor humano tivesse prazo de validade.


Resgatar os invisíveis não é um gesto de caridade.

É um gesto de lucidez.


É reconhecer que uma cultura só é verdadeiramente criativa quando sabe olhar para além do palco. Quando entende que o que não aparece também molda quem somos. Quando aceita que o silêncio, a pausa e a escuta são forças — não falhas.


Talvez o verdadeiro desafio contemporâneo não seja inventar o novo a qualquer custo, mas reaprender a ver quem continua ali, mesmo quando deixamos de olhar.


Os invisíveis da sala ao lado não desapareceram.

Fomos nós que fechamos a porta.


Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade


Sobre o autor

David Gertner, Ph.D. é professor aposentado, escritor e ensaísta. Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu, vive há mais de três décadas nos Estados Unidos. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David (Amazon) e escreve sobre identidade, memória, ética, tecnologia e a condição humana.



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"Cultura, Sociedade e Outras Teses"

 

Como funcionam os mecanismos de registro, distribuição, sincronização

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