Os que Andam em Círculos
- David Gertner

- há 2 horas
- 2 min de leitura

Há pessoas que caminham muito e, ainda assim, não saem do lugar.
Mudar de rua, de cidade, de opinião. Trocam de trabalho, de relações, de discursos. Mas algo nelas permanece girando, como um ponteiro quebrado, retornando sempre ao mesmo ponto.
Andam em círculos.
Não por falta de movimento,
mas por falta de travessia.
O círculo é confortável. Oferece a ilusão do progresso sem o risco da ruptura. Nele, tudo retorna ao conhecido: as mesmas queixas, os mesmos culpados, as mesmas justificativas cuidadosamente recicladas.
Quem anda em círculos confunde repetição com coerência. Chama de fidelidade aquilo que é medo de abandonar. Chama de identidade aquilo que já se transformou em prisão.
Há círculos ideológicos, nos quais a realidade só é aceita quando confirma a crença.
Círculos afetivos, nos quais se ama sempre do mesmo modo e se sofre pelas mesmas razões.
Círculos morais, nos quais o certo e o errado mudam conforme quem age.
O círculo protege do abismo —
mas também impede a paisagem.
Caminhar em linha reta exige perda. Exige deixar algo para trás sem garantia de retorno. Exige admitir que certas narrativas já não explicam o mundo e que alguns mapas envelheceram dentro do bolso.
Por isso, muitos preferem girar.
O círculo dispensa perguntas novas. Dispensa silêncio. Dispensa escuta.
Nele, não é preciso atravessar o outro, nem aceitar a complexidade, nem suportar a dúvida.
Mas há um custo invisível.
Quem anda em círculos começa a confundir o mundo com o próprio reflexo. Vê sempre os mesmos inimigos, as mesmas ameaças, as mesmas certezas vestidas de indignação.
O tempo passa —
mas nada amadurece.
Sair do círculo não é correr.
É interromper.
É parar no meio do movimento e perguntar, com uma honestidade desconfortável:
“Para onde estou indo — ou apenas girando?”
Às vezes, o primeiro passo para fora do círculo não é um avanço,
mas um silêncio.
Um silêncio que desorganiza.
Que desmonta slogans.
Que suspende automatismos.
Só quem aceita esse vazio inicial descobre que o caminho não é fechado, que a vida não segue um traçado perfeito e que caminhar, de verdade, é sempre um risco.
Os que ousam sair do círculo perdem certezas,
mas ganham horizonte.
Os que permanecem girando continuam em movimento —
e chamam isso de destino.
Sobre o autor
David Gertner é escritor e ensaísta. Nascido no Brasil, doutor pela Northwestern University e radicado há mais de três décadas nos Estados Unidos, é professor aposentado e autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon. Escreve sobre ética, identidade, memória, silêncio e a condição humana.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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