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Por um bom Dezembro, por um bom Novo Ano aos bobos

Atualizado: 6 de jan.

   

 

Vai chegando o fim de ano e depois de certo tempo, quando já não tinha mais avó e avô pra dar encantamento ao Tempo, passei a sentir esse período como uma Parada de 7 de Setembro que em tempos idos era obrigatória para muitos estudantes. Dessas paradas escapei, só participando de duas que foram muito divertidas, a do Jardim-de-Infância, em que cada um podia levar um brinquedo, e ao do segundo ano do Segundo Grau, em que nossa turma fazia qualquer motivo de reunião, obrigatória ou não, motivo pra festejo e celebração de estarmos juntos.


     Vivo mesmo é num Tempo manoelino, de bobos. Os bobos de Clarice, como fez lembrar a inspirada Niva Fonseca.  Um Tempo sem tempo, tempo de observar formigas, pombos, sabiás, bem te vis, se tem flores ou não na praça, quantos mendigos estão enrolados pelo chão das calçadas do bairro, xingar o acelerado do smartphone, que de telefone não tem nada, é tudo esperteza, a irritação de memes e memes que se repetem no mesmo tema, a obrigação da Parada cívica em que nós, os bobos e muitos espertos, se sentem impelidos a se pronunciar sobre os acontecimentos diários, sem estudarmos sobre eles. E tenho me dado conta, eu que ingressei nesse universo não faz muito tempo, depois de me distanciar de tudo e todos por várias surpresas, eu que, antropóloga e poeta do cotidiano, sou observadora sem não ser nem um pouco voyeur, mas por me perguntar, já criança: que diabos significa isso? Meu Amigo me disse que pareço Mafalda e deu-me de presente a coleção completa dos quadrinhos da menina questionadora dos óbvios.


       E quando chega o final do ano, desde os 20 lembro sempre o poema do Drummond:



 PASSAGEM DO ANO


O último dia do ano

não é o último dia do tempo.

Outros dias virão

e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.

Beijarás bocas, rasgarás papéis,

farás viagens e tantas celebrações

de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,

que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,

os irreparáveis uivos

do lobo, na solidão.

(...)

 

        Fica a sugestão pra quem quiser ler o poema completo para ir além de um meme.


        Mas ontem foi aniversário de Manoel de Barros, e isso mexeu comigo, pois este, como Clarice e Adélia, é um bobo. E a bobice é o que me move, e o que me segura é o ceticismo e a escrita de quem enxerga longe e testemunha seu tempo, Drummond. E o coração bate em disparada, pois trabalho muito desde os 20, embora, como boba, pareça muitas vezes não estar nada a fazer pois não consigo me mexer com ufanismo, pressa, afobação, como exigem os Tempos Modernos. Um sábio querido já me disse, alertando-me, que esse é um problema que tenho pois não vejo (serei míope feito Manoel de Barros?) a passagem do tempo, e assim também uma dita amiga, que na verdade pouco me conhece, essa assim acusou-me! Mas acho que Drummond se deu conta da afobação e confessou: “Cansei de ser moderno...”.


          Abestalhada feito Manoel de Barros e Macabéa, mas sempre atenta ao trânsito, que não quero que nenhuma Mercedes  me leve desta. Que nada...”A boca está comendo vida/ A boca está entupida de vida/. A vida escorre da boca,/lambuza as mãos/ a calçada/A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia” (CDA, no poema Passagem do Ano). Houve tempos em que da Avenida Rio Branco caía uma chuva de poesia nos papéis picados que os funcionários das tantas empresas jogavam dos prédios, fazendo uma chuva de Dezembro, o que seria uma chuva de maná na travessia, documentos, recibos, etc, etc, que já seriam de um ano passado, e havia a espera do Novo Ano.


           Saber do aniversário de Manoel de Barros ontem, me fez trabalhar durante toda a noite revisitando seus livros que li, revisitando a memória, a gratidão e a saudade do Amigo, que não vejo há algum relativo pouco tempo, que há mais de trinta anos me dera um livro de poemas do Manoel dizendo-me: “você vai gostar, parece com você.” E lá está aquele escritor de paragens alagadas  feito o Recòncavo da Guanabara -  como descreviam os geógrafos de décadas passadas - escritor do Pantanal que não conheço, pois minhas viagens são pelos livros, ele que translitera o português feito Guimarães Rosa e brasileiros do linguajar cotidiano de longe do português hegemônico. A noite passou no trabalho da memória do Amigo, do Avô e da Avó atemporais, da infância de pasmaceira no quintal em que fazia a ciência de acompanhar nuvens e a fileira de formigas e cavucar formigueiros buscando a dita formiga-rainha, nunca encontrada, ciência de matuta.


            E o editorial de ontem do Antonio Galante falando dos sentidos do portal Criativos, fazendo ponte entre passado-presente-futuro, o escoar da ampulheta, ligando nesse portal, feito porteira de estância, a produção de muita gente, alguns de pontos de vista diferentes. Mas creio nos Espíritos Santos pra nos mostrar e iluminar pra deixarmos de miopia (Manoel usava bons óculos) e vermos que não podemos mais continuar destruindo o planeta, e nos destruindo nesse estilo de vida hambúrguer que sensivelmente vi seu surgimento e não me agradou. Não fazia muitas décadas e todos caminhávamos muito, não me importa se sem lenço nem documento, eu própria muito andarilha.


            “Sente-se pois então que árvores, bichos e pessoas têm natureza assumida igual. O homem no longe, alongado quase, e suas referências vegetais, animais. Todos se fundem na mesma natureza intacta. Sem as químicas do civilizado. O velho quase-animismo.” (Livro de Pré-Coisas, Manoel de Barros).

 

 Artigo Quem Somos Nós (citado por Sonali Maria)


Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade.


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