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Porque Eu Queria Ser Poeta


David Gertner
David Gertner

Demorei anos para admitir: eu queria ser poeta.


Há um momento na vida em que percebemos que a linguagem comum já não basta.


As palavras continuam lá — funcionais, corretas, úteis. Servem para contratos, relatórios, e-mails, discursos. Servem para explicar. Servem até para convencer.

Mas não servem para tocar.


Foi nesse intervalo — entre o que podia ser dito e o que precisava ser sentido — que eu quis ser poeta.


Não para publicar versos.

Mas para aprender a dizer o indizível.


Queria ser poeta porque intuía que a realidade não cabe inteira na lógica. Que há verdades que não se demonstram, apenas se revelam. Que o silêncio, às vezes, fala mais alto do que qualquer argumento.


A poesia me parecia uma forma de justiça com aquilo que escapa.


O cheiro da casa da infância.

O olhar cansado de um pai que nunca reclamou.

A coragem silenciosa de uma mãe que atravessou oceanos.

O instante em que o tempo para — não no relógio, mas no peito.


Como traduzir isso em prosa utilitária?


Eu queria ser poeta para não trair esses momentos com explicações excessivas.


Porque o poeta não explica — aproxima.

Não define — sugere.

Não impõe — convida.


E há algo mais profundo.


Ser poeta, para mim, nunca foi uma ambição estética.

Foi uma ambição ética.


Porque o poeta responde ao mundo com atenção, não com ruído.


Num tempo em que todos opinam, gritam, disputam versões e certezas, a poesia é um gesto de escuta. Ela desacelera a linguagem. Suspende o julgamento. Devolve espessura às palavras.


Talvez eu quisesse ser poeta porque sempre vivi entre mundos.


Filho de imigrantes que carregavam uma língua que não era a do país onde eu nasci. Estrangeiro em terras onde me naturalizei. Habitante de fronteiras invisíveis. A poesia me parecia o único território onde não era preciso escolher um lado.


O poema aceita o paradoxo.

Aceita a contradição.

Aceita a incompletude.


Na poesia, não preciso ser inteiro — posso ser processo.


Queria ser poeta porque a vida, às vezes, é excessiva.

Há dores que não cabem em diagnósticos.

Há alegrias que não cabem em estatísticas.

Há silêncios que não cabem em respostas.


O poeta não resolve a existência. Ele a honra.


Eu queria ser poeta para aprender a escutar.


Escutar o que as pessoas dizem sem dizer.

Escutar o que a memória sussurra quando a casa fica em silêncio.

Escutar o que o tempo tenta nos ensinar enquanto corremos.


Querer ser poeta é querer continuar vulnerável.

É recusar a blindagem completa.

É admitir que o mundo ainda pode nos ferir — e nos comover.


Talvez eu nunca tenha sido poeta no sentido formal da palavra.

Mas continuo querendo ser.


Porque sempre que escolho uma palavra com cuidado, estou ensaiando um verso.

Sempre que deixo um silêncio respirar no meio de um texto, estou escrevendo um poema invisível.

Sempre que tento compreender antes de julgar, estou rimando com a humanidade.


No fundo, talvez ser poeta seja isso:

continuar sensível quando seria mais fácil endurecer.




David Gertner, Ph.D.

Escritor e ensaísta. Autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, e de dois novos livros com lançamento previsto para 2026. Escreve sobre identidade, memória, ética, tecnologia e a condição humana.



Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade



 

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1 comentário


Sonali Maria
Sonali Maria
há 2 horas

Gratidao por tao lindo e arguto texto...o espalharei como sementes ao vento....

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