POUCO TETO

O voo estava lotado. Todos se olhavam com desconfiança. Imaginava que fosse sempre assim. Talvez fosse mesmo. Nunca tinha estado naquela situação. Um monte de gente que não se conhece, dentro de um aparelho enorme, carregado de combustível, muito mais pesado que o ar, com atmosfera interna artificialmente controlada, prestes a atravessar um oceano em 12 horas de voo contínuo. Havia muitos elementos para a desconfiança geral. O Geraldinho sentia que não era o único esquisito ali. Quem topou aquela empreitada, a começar pela viagem, não poderia ser considerado normal.
A disposição das malas nos compartimentos de bagagem rendeu diversos pequenos conflitos, mas, ao final, todos pareciam acomodados, até que o comandante disse algo e, imediatamente, agentes de polícia entraram, foram direto a uma poltrona à frente do Geraldinho e levaram o passageiro. Ele não esboçou reação, mas o Geraldinho, que já tinha uma pulga atrás da orelha, agora tinha várias. Especialmente depois que alguns passageiros aplaudiram efusivamente a prisão.
A cada nova fala do comandante, incluindo aí uma em que dizia que o voo atrasaria alguns minutos em virtude da falta de teto, o Geraldinho se preparava para o pior, ainda que não tivesse contra si nenhuma infração cometida.
Ouviu atentamente as instruções de segurança, achou estranhas as falas em outros idiomas, duvidando que alguém entendesse aquilo, e assustou-se quando finalmente o avião taxiou e acionou os motores para decolar.
Foi um espanto ver, de dentro, o bico da aeronave levantando e o bicho ganhando altura. Agora era irreversível.
Geraldinho tinha deixado o passado religioso havia tempos, mas recitou Pai-Nosso, Ave-Maria, Salve-Rainha, fez o Sinal da Cruz e arrematou com a Oração de São Jorge, caprichando na parte que diz: “Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar.” Foi coroinha num passado remoto. São coisas que não se esquece.
Geraldinho precisou, em certo momento, fazer uso de um dos banheiros do avião. Entendeu perfeitamente o letreiro luminoso que indicava, com a luz verde, o banheiro livre. A dificuldade se deu no momento de abrir a porta para entrar no cubículo sanitário. Passado o aperto, voltou satisfeito para o assento e viu se aproximar o carrinho com a primeira refeição da viagem.
— Peixe ou carne?
— Peixe — respondeu o Geraldinho, sem convicção.
— Água, refrigerante, cerveja, vinho ou whisky?
O Geraldinho ficou francamente tentado a aceitar todas as ofertas, mas resolveu agir com parcimônia e só pediu água e vinho.
O peixe era pouco e insosso. A água, quente, era tão estranha quanto tudo ali. O vinho era Bordeaux. Um sopro de normalidade. Há poucos anos, Geraldinho detestaria um vinho normal. Antes só bebia sidra barata e vinho suave. Mas mudara. E rezava quando lembrava, pra agradecer por isso.
Algum sono e várias turbulências depois, quando a certeza da queda do avião e da consequente morte sobre o mar já dominava a mente, o piloto fez menção de pousar. O Geraldinho não entendeu direito, mesmo quando o comandante falou em português.
O pouso em Frankfurt foi suave como uma pluma, se comparado ao desconforto da viagem.
Mas o Geraldinho não foi preparado para uma escala na Alemanha. Nem em lugar algum! Quando imaginava que o convívio por longas horas talvez criasse algum tipo de empatia entre aquelas almas, o que aconteceu foi a dispersão absoluta. Todos se dirigiram para outros voos ou para seus hotéis e destinos.
Precisaria ainda — e agora sozinho — tomar outro voo, por mais algumas horas, para finalmente retirar o prêmio que ganhou como chefe da segurança da empresa, depois de 15 anos de trabalho.
Estava a caminho da Turquia, para fazer um implante capilar.
Mas, se soubesse desse perrengue todo do avião, talvez não tivesse aceitado. Optaria por continuar careca! Já estava acostumado.
O pior, no entanto, é que ainda teria todo o voo de volta!!
Lyon, setembro de 2026.
Estou ouvindo a playlist Gisa Nogueira, uma artista extraordinária.
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