REGULAÇÃO
- Leo Viana

- há 3 horas
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A Nara vivia sob a sombra de um certo grau de escatologia. Quase tudo em sua vida resultava em problemas de natureza gastrointestinal.
Desde muito cedo tinha seu aparelho digestivo condicionado às emoções. Fossem elas positivas ou negativas — felicidades intensas ou sofrimento —, o intestino parava de funcionar, ou pelo menos de dar sequência normal às suas atividades. Assim, vitórias ou derrotas de seu time de coração tinham impacto semelhante, o que significava, em última instância, dias sem defecar.
Passou então, ao longo da vida, a lutar não contra seu sistema digestório, sabidamente temperamental e decidido, mas contra seu sistema nervoso, capaz de bloquear as saídas e contribuir ainda mais para o caos em que se transformava seu intestino quando só pretendia eliminar os excessos.
Sofreu muito na adolescência, quando não tinha absoluto controle sobre suas emoções e os hormônios complicavam ainda mais a situação, exacerbando reações, provocando choros intempestivos ou momentos de euforia infundada.
Cada pequeno contratempo, como uma nota menor que a prevista numa eventual prova de matemática, significava uma terrível dor no ventre, agravada pela certeza de que nada sairia dali por dias. As consecutivas temporadas sem vitória do clube do coração também causavam um estrago terrível. Verdade que, após alguns dias, todo o “material” retido era eliminado, mas não sem um sofrimento adicional. Permanecia por muito tempo no sanitário, sofria mais dores e, sendo adolescente, era vítima certa do bullying dos colegas.
Só conseguiu algum controle no início de sua fase adulta após inúmeros tratamentos — de medicamentos a hipnose e de fisioterapias a sobrenaturalidades diversas. A regulação, no entanto, seguiu tênue pela vida afora, o que obrigou a Nara a minimizar reações emocionais mesmo diante de conquistas ou perdas importantes.
As coisas só começaram a mudar definitivamente quando conheceu o Julinho.
Aliás, “conhecer o Julinho” soa equivocado. O Julinho era vizinho da Nara desde que nasceram, com um intervalo curto entre as datas. Os pais eram amigos e frequentavam o mesmo círculo social. Quando da escolha das escolas para os filhos, decidiram pela mesma instituição, e as crianças praticamente cresceram juntas, quase como irmãos, filhos únicos que eram das duas famílias. A excessiva proximidade descartava imediatamente, na cabeça das famílias, qualquer risco de maior envolvimento entre eles. Jamais namorariam, imaginavam todos. Mas não foi assim que aconteceu.
Por volta dos 15 anos — e a precisão aqui não é o mais importante —, o Julinho começou a sentir coisas diferentes pela Nara, que não percebia a mudança no comportamento do quase irmão. Ainda eram melhores amigos. Era para o Julinho que a Nara tinha coragem de confessar suas dores e, de certa forma, fazer dissipar as emoções fortes que levavam aos males gástricos. Era ele quem a defendia do bullying sistemático, e era ela quem o ajudava nas matérias difíceis.
Entraram juntos na universidade. Ela, em causa própria, na Medicina. Ele, pra ficar por perto, na Psicologia. Chegou a pensar na Enfermagem, pra estar ainda mais perto, mas achou que era dar bandeira demais. E, ao fim e ao cabo, o grande problema da Nara era emocional.
Durante o curso, o problema da Nara teve agravamentos pontuais, como em provas de Anatomia ou sob a pressão dos primeiros pacientes. Foram a sensibilidade, a paciência e o acolhimento do Julinho que a fizeram superar os picos de tensão. Ainda pensando nele como irmão, procurava o Julinho ao final de cada jornada.
Levou um tempo até que um beijo apaixonado acontecesse. E, com ele, uma desconfortável e constrangedora diarreia.
Talvez não tenha sido a melhor maneira.
Mas o problema acabou.
Rio de Janeiro, março de 2026.
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