RIO DE JANEIRO, CAPITAL DO QUÊ?
- José Luiz Alquéres

- há 1 dia
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Ao ligar o rádio pela manhã, o locutor de famosa estação de notícias comentava o noticiário policial e chamava o Rio de “capital do narcoestado”. Não estava claro se ele se referia à capital do país ou da nossa unidade da federação. Lembrei-me, de imediato, da famosa composição “Rio 40 Graus”, de Fausto Fawcett, na voz da linda co-autora Fernanda Abreu, que cantava: “Rio 40 graus/ Cidade maravilha Purgatório da beleza e do caos/ Rio 40 graus/ Purgatório da beleza e do caos/ Capital do sangue quente do Brasil/Capital do sangue quente/Do melhor e do pior do Brasil...” A lembrança sugere duas possíveis leituras sobre de que, afinal, o Rio de Janeiro poderia ser considerado capital: capital simbólica da vitalidade cultural ou capital das contradições urbanas que o atravessam.
Poucos minutos depois dessa recordação, chegou a notícia de que um funcionário aqui de casa havia sido assaltado na Rua Rainha Elizabeth, em Copacabana, próximo ao Hotel Fasano, considerado um dos melhores da cidade. O contraste foi imediato. Lembrei-me também de uma discussão recente em que um grupo defendia redefinir o Rio de Janeiro como capital honorária do país — movimento claramente movido pela nostalgia que costuma alcançar pessoas acima dos 70 anos, ainda ligadas à memória do Rio como antiga capital da República, com centralidade política, relevância econômica, criminalidade relativamente contida e imagem respeitada diante das grandes metrópoles do mundo.
Entre a nostalgia e a realidade, surge uma terceira via possível: considerar o Rio como a grande usina brasileira de ideias e inovação — uma verdadeira fonte de soft power. Foi aqui que o samba se consolidou e ganhou projeção nacional, desenvolvendo-se a partir de raízes baianas, com linguagem popular dos morros e da periferia, e também alcançando formas sofisticadas, como a bossa nova e o samba-jazz. É também no Rio que se concentram instituições culturais de peso, como a Academia Brasileira de Letras e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, entre muitas outras que exerceram influência decisiva na formação cultural do país.
A cidade abriga ainda o mais expressivo conjunto de edificações dos períodos colonial e imperial. A partir de uma base agrária e de elites locais, formou-se ali parte relevante da classe dirigente que estruturou fundamentos políticos nacionais. Esse patrimônio histórico e simbólico tem peso inegável na identidade brasileira.
Nada disso, porém, permite ignorar a situação presente. Aproximadamente um quarto da cidade é composto por moradias em condições precárias, realidade incompatível com qualquer pretensão honorífica. A coexistência de áreas dominadas pela informalidade e pela criminalidade organizada — para onde são levadas cargas roubadas e rapidamente desmontadas em oficinas clandestinas — impõe ao Rio contornos de desordem que vão além de qualquer metáfora poética de “purgatório”: trata-se de crise concreta.
Há uma eleição em cerca de oito meses — menos que um ciclo completo de gestação — e ela deveria marcar o início de uma reversão consistente desse quadro. No entanto, o discurso público dominante ainda aponta mais para eventos e espetáculos — o próximo grande festival, o réveillon, shows internacionais — do que para soluções estruturais. Ao mesmo tempo, crescem as dificuldades de arrecadação de serviços públicos, amplia-se a inadimplência de tributos urbanos e ainda se alimentam expectativas de receitas duradouras baseadas em combustíveis que a agenda de sustentabilidade tende a substituir.
O Rio precisa projetar um futuro que seja concreto, atingível e inclusivo para todos os seus moradores — e com senso de urgência. Isso depende de participação política efetiva, escolha criteriosa de representantes e compromisso com gestão qualificada. O momento é decisivo. A cidade se aproxima de um ponto em que a decadência pode tornar-se estrutural. Reconhecer esse risco é difícil; agir com eficácia para enfrentá-lo é ainda mais — mas indispensável.
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Concordo muito. Estah alem do suportável a situaçao. Com a metáfora do "purgatório", Fausto Fawcett e Fernanda Abreu mostravam a realidade ligada ao imaginário de purgatório, onde se pena para se salvar de pecados, num limite com o Inferno.
Nao dah mais pra "tapar o sol com a peneira", que aqui nos leva ha 40.graus, jah indicava Nelson Pereira dos Santos nos anos 1950.