Rio de Janeiro: Identidade Cultural, Soft Power e o Templo da Música Carioca
- José Luiz Alquéres

- há 10 horas
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O TEMPLO DO SAMBA.
O Rio de Janeiro precisa assumir de forma plena sua identidade histórica e cultural, desenvolvendo-se a partir de suas tradições mais profundas — não apenas aquelas visíveis na arquitetura, nas paisagens naturais e no patrimônio urbano, mas também nas manifestações simbólicas que definem a alma da cidade. Entre elas, a música ocupa lugar central.
Preservar uma tradição é criar condições permanentes para que ela seja apresentada, compreendida e renovada ao longo do tempo. Em diversos centros urbanos do mundo, a música tradicional integra de forma organizada a vida cultural e turística. Há espaços permanentes em que repertórios históricos são executados, contextualizados e apresentados como parte essencial da identidade local.
Em Buenos Aires o visitante pode ir em qualquer época do ano e assistir belíssimos shows de Tango, combinando tanto a parte históricas quanto suas manifestações modernas. Em Lisboa sucede o mesmo com as casas de fado, que assim mantêm viva uma das maiores manifestações culturais do país. No Rio de Janeiro, essa reflexão conduz inevitavelmente ao samba.
Durante muito tempo, porém, o samba esteve distante do reconhecimento institucional. Em seus primeiros momentos, foi frequentemente associado à marginalidade e alvo de desconfiança por parte das elites políticas e sociais. Causou escândalo sua apresentação nos salões do Palácio do Catete, em festa promovida pelo Presidente Hermes da Fonseca e sua mulher Nair de Teffé, que executou ao violão o Corta-Jaca, composição de Chiquinha Gonzaga. Rui Barbosa discursou na tribuna do Senado dias depois atacando o evento. No trecho mais famoso disse:
“A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba...”
Com o passar do tempo, entretanto, o gênero rompeu resistências e se consolidou como uma das expressões mais fortes da cultura brasileira. A expansão das gravações em disco e, sobretudo, a popularização do rádio permitiram que o samba deixasse as rodas suburbanas e alcançasse dimensão nacional.
Ao longo dessa trajetória, o gênero também se transformou. Nos apartamentos e encontros musicais da Lapa e de outros bairros da cidade, surgiria mais tarde a Bossa Nova, nascida de experimentações que reformularam harmonias, ritmo e interpretação vocal. Paralelamente, o samba-canção consolidou sua vertente sentimental, enquanto o samba-enredo desenvolveu uma função narrativa singular.
Inicialmente voltado à apresentação rítmica de temas históricos, o samba-enredo passou também a incorporar crítica social, comentário político e mensagens indiretas em períodos de censura. Em diferentes épocas, compositores populares e autores sofisticados utilizaram o gênero para expressar visões de liberdade, crítica à repressão e expectativas de modernização social.
Essa riqueza histórica e estética exige hoje um espaço permanente de valorização.
O Rio recebeu cerca de 12 milhões de visitantes em 2025 — um recorde histórico. Trata-se de um fluxo equivalente à própria dimensão populacional da metrópole. Em termos simbólicos, é como se cada habitante recebesse dois visitantes ao longo do ano. Para que esses visitantes saiam com desejo de retornar, a experiência urbana precisa ir além da paisagem natural.
A música tem papel decisivo nesse processo, porque produz vínculo emocional, memória e identificação.
Por isso, a cidade precisa de um espaço permanente dedicado à sua produção musical: uma arena concebida especificamente para apresentações ao longo de todo o ano, com programação contínua baseada nas diferentes vertentes da música carioca.
Esse espaço deveria ser arquitetonicamente pensado para privilegiar a intimidade sonora: uma arena circular, envolvente, com acústica rigorosamente controlada, capaz de valorizar tanto a delicadeza de um cavaquinho quanto a profundidade de um violão de sete cordas, a leveza de uma flauta ou a força de formações percussivas mais intensas.
A proposta é que a música seja também ambientação sensorial: se o repertório fala do morro, que o ambiente evoque o morro; se fala da praia, que remeta à praia; se aproxima composições de Jacob do Bandolim de matrizes portuguesas, que revele essas continuidades culturais; se apresenta samba-jazz, que exponha a capacidade de reinvenção permanente da tradição carioca.
A programação deveria começar ao fim da tarde e se renovar em dois ou três espetáculos diários, permitindo a convivência entre intérpretes consagrados, novos executantes e a redescoberta de compositores esquecidos.
Mais do que uma casa de espetáculos, esse espaço deveria estimular o surgimento de curadores musicais — profissionais capazes de selecionar repertórios, intérpretes e narrativas, assim como já ocorre nas artes visuais.
A curadoria daria sentido histórico e qualidade artística ao conjunto, transformando cada apresentação em experiência cultural consciente.
O resultado seria um verdadeiro templo da música carioca: um espaço capaz de eternizar repertórios, revelar talentos e fortalecer a admiração permanente por uma tradição que constitui um dos maiores patrimônios imateriais do país.
Numa cidade que deixou de ser apenas capital histórica para se tornar uma megalópole de cerca de 14 milhões de habitantes, o maior ativo estratégico talvez esteja justamente em seu poder cultural — seu soft power — como instrumento de projeção, vitalidade econômica e sobrevivência simbólica no século XXI.
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Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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