Samba-enredo: Vai Passar (de novo) Uma crônica carnavalesca sobre o país que insiste em desfilar seus paradoxos
- David Gertner

- há 12 horas
- 3 min de leitura

O desfile começa sem aviso.
Não há sirene nem clarim. Há apenas um rumor — esse som antigo que mistura tambor, riso e pressentimento. A avenida se abre como um espelho em movimento, e a Escola de Samba Unidos do Brasil entra inteira, sem ensaio geral, trazendo o país costurado em alas.
Ala dos Meritocratas Hereditários
Vêm altivos, carregando no peito medalhas que não conquistaram e sobrenomes que brilham mais que o strass. Marcham convictos: acreditam que chegaram ali sozinhos. O samba fala de esforço; os passos, leves demais para quem nunca tropeçou.
Ala dos Éticos Flexíveis
De longe parecem retos; de perto, dobram com graça. Princípios ajustáveis, valores com elástico, consciência em versão portátil. Giram conforme o vento, certos de estar do lado certo — qualquer que seja.
Revolucionários de Camarote
Punhos erguidos, palavras inflamadas, vista privilegiada. Protestam contra o sistema enquanto pedem mais gelo. O mundo precisa mudar, dizem — mas não agora. O desfile ainda não acabou; o conforto, sim, é frágil.
Patriotas Offshore
Vestem verde e amarelo com sigilo bancário. Juram amor eterno à pátria, mas guardam os afetos em águas calmas, longe demais para perguntas incômodas.
Inocentes Profissionais
Mãos limpas, olhares vazios, memória seletiva. Nunca souberam, nunca viram, nunca participaram. Passam leves — a arte de atravessar a história sem deixar pegadas.
Gestores do Caos Organizado
Tudo parece bagunça, mas nada é acaso. Planilhas invisíveis sustentam o improviso; a desordem dança obediente. Não gritam: administram. Aqui, o samba é técnico, quase mudo.
Humanistas Seletivos
Empatia por cotas, solidariedade com critérios, compaixão sob demanda. Há dor demais no mundo, explicam — é preciso escolher bem a quem sentir.
A bateria desacelera.
Ala dos Íntegros dos Três Poderes
Anunciada com solenidade.
Atravessa a avenida vazia.
Oráculos de Toga
Silêncio solene. Mantos que confundem prudência com infalibilidade. Falam em nome da lei, raramente escutam a rua. Caminham devagar, como se o tempo lhes devesse obediência. Interpretam o país enquanto juram protegê-lo.
Quase ao entardecer do desfile:
Retirantes do Alvorada
Malas invisíveis, palácios para trás, discursos finais no bolso. Dizem que partem por dever ou cansaço. Levam, porém, decisões que não se desfazem com a mudança de endereço. O poder ali não termina — troca de cenário.
A bateria retoma o pulso para o fechamento.
Napoleões Retintos do Século XXI
Pequenos imperadores, sombras longas, espelhos generosos. Marcham certos da própria grandeza, sem notar que a avenida os encolhe. A história os conhece — só muda o figurino.
Quando a última ala passa, algo ecoa.
Não é nostalgia; é reconhecimento. Esse samba já foi cantado:
Palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
E os pigmeus do bulevar.
[Versos da canção Vai Passar, de Chico Buarque.]
O Brasil segue desfilando o mesmo enredo, trocando a fantasia, ajustando o ritmo, mudando o nome da ala. O tom varia; a melodia insiste. Passa um ano, passa outro — e passa de novo.
Chega a quarta-feira. A avenida esvazia, o confete vira poeira.
Mas o desfile não acaba. Sai do sambódromo e volta à vida cotidiana — sem fantasia, sem música, sem aplauso.
E alguém sussurra:
vai passar.
E o país, este, segue na avenida.
[Este texto é um diálogo assumido com a leitura histórica e poética que Chico Buarque fez do Brasil em “Vai Passar”.]
David Gertner, Ph.D.
Professor aposentado, escritor e ensaísta. Doutor pela Northwestern University, nasceu no Brasil e vive há mais de três décadas nos Estados Unidos. Escreve sobre identidade, memória, ética e a condição humana. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David e de livros com lançamento previsto para 2026.
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