SISTEMA
- Leo Viana

- 12 de abr.
- 4 min de leitura

Os amigos sempre disseram que o Alcebíades era desconfiado demais de tudo. Talvez por não ter desenvolvido confiança no próprio pai, que encontrou nos antepassados a inspiração para este nome de época.
O Bia, como era conhecido entre os amigos, apesar da resistência inicial, achava que estavam o tempo todo mexendo com ele, zombando dele, “mangando” dele, que era como a tradição oral da família nordestina o fazia lembrar sempre. “Bia” era apelido de mulher, e isso incomodava o garoto.
A sensação de estranhamento era permanente.
A certa altura, já adulto, com poucos amigos e muita desconfiança, a perda definitiva do juízo nem foi notada por muita gente. Um ou outro, dos poucos, percebeu que ele estava mais arredio do que nunca. Para quem nunca foi sociável, alguns outros nem notaram diferença.
Desde sempre andava se esgueirando pelos cantos. Agora, mais. Desconfiava do bullying iminente; agora tinha certeza. E mais: não fosse bullying, podia ser coisa ainda mais grave.
Usuário avançado de informática, desconfiava que pequenos insetos podiam conter chips espiões e que insetos maiores poderiam ter inclusive câmeras, funcionando como pequenos drones interessados em coletar informações importantes. Homens e mulheres comuns poderiam ser agentes infiltrados dos serviços secretos de Israel ou dos Estados Unidos, interessados em segredos desenvolvidos por ele em suas rotinas de trabalho em TI. Homens de barba ou mulheres em trajes mais fechados provavelmente escondiam, atrás da discrição, credenciais do Estado Islâmico ou da Al Qaeda.
Passou a não cumprimentar mais colegas de óculos. Sabia que os óculos poderiam ser facilmente manipulados em laboratórios de alta tecnologia e receber chips de realidade aumentada para extrair dele segredos profissionais. Ou segredos pessoais inconfessáveis.
Precisava agir. Decidiu deixar de lado, por um tempo, a discrição e a periferia dos acontecimentos. Não podia mais viver desviando-se dos eventos perturbadores que, sabia, aconteciam o tempo todo.
Sua primeira ação buscou dar máxima visibilidade a seu desconforto. Numa via expressa de transporte público, postou-se no meio, tal e qual o conhecido gesto do estudante chinês diante dos tanques no Protesto da Praça da Paz Celestial, em 1989. Braços abertos, disse palavras que ninguém conseguiu entender, mas tinha na mente que os ônibus, principal meio de transporte do Rio de Janeiro, eram usados para coletar informações sobre os habitantes. Informações que o Estado usaria depois para manipular as pessoas.
Foi fotografado, filmado, xingado e responsabilizado pelo atraso de milhares de pessoas. Detido e interrogado, disse exatamente o que pensava, para espanto dos policiais. Sem advogado, a Defensoria pediu um laudo sobre sua saúde mental e conseguiu, facilmente, no mesmo dia, a sua liberação.
De volta a seu bunker tecnológico, onde formulava novas ações, desenvolvia suas teses e procurava — sem sucesso — parceiros na deep web.
Restava seguir agindo sozinho, agora já não mais réu primário. A nova tentativa de se fazer compreendido veio após muita reflexão solitária. Munido de faixas e cartazes, repelente, agasalho e lanterna de luz baixa, subiu a floresta até o Corcovado pelos caminhos mais difíceis, driblou a vigilância e escalou o monumento. Polícia e bombeiros foram chamados para retirar, da cabeça do Redentor, o reincidente que dizia, aos brados, que o sistema vigiava a maior parte dos moradores do Rio pelas antenas instaladas no morro do Sumaré, ali perto. Também o sistema de para-raios do Cristo seria parte do equipamento de espionagem.
Os responsáveis pela captura do Bia não tiveram sucesso fácil. Entre as possibilidades, o uso de dardos tranquilizantes poderia provocar sua queda, com consequências graves. O convencimento teórico não fazia efeito. E ninguém aprovaria o uso de qualquer tipo de violência contra alguém num local com simbologia religiosa tão forte.
Após muitas horas de interdição da visitação e plantões dos telejornais, foram o sol e o forte calor do verão carioca que fizeram com que ele se entregasse. Novamente interrogado, detido, analisado, fichado e liberado, foi notícia e achou que tinha efetivamente passado o recado fundamental para a humanidade.
Gostou de se ver em sites, redes sociais e televisões. Talvez fosse uma estratégia melhor mesmo do que a antiga introspecção. Ia refletir a respeito. A exposição também poderia ser só uma etapa de sua luta contra o sistema. Por enquanto, ia vigiar aquele vizinho suspeito, juiz aposentado, que tinha aparentemente uns 105 anos de idade e podia, claramente, ser um nazista fugido e ainda ativo, numa célula latino-americana, apesar do jeito de velhinho indefeso. E o gato dele, cujos movimentos eram evidentementerobóticos. Precisava decodificar o sistema daquele felino espião.
Não tinha um minuto de sossego!
O sistema não dorme!
Rio de Janeiro, abril de 2026.
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