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Timshel

há 11 minutos
6 min de leitura

Entre aquilo que a vida determina e aquilo que ainda podemos decidir, existe um espaço onde a liberdade humana encontra seu significado.


Por David Gertner


Há palavras que atravessam séculos carregando significados maiores do que aqueles que lhes deram origem. Algumas nascem em textos religiosos, outras encontram abrigo na filosofia, na literatura ou na política. Com o tempo, deixam de pertencer exclusivamente ao lugar onde surgiram e passam a falar menos de uma crença ou de uma doutrina do que da própria condição humana.


Timshel é uma dessas palavras.


De origem hebraica, presente em uma passagem do livro do Gênesis, cuja composição remonta a mais de dois milênios, a palavra ganhou uma interpretação particularmente bela no romance East of Eden, publicado por John Steinbeck em 1952. Ali, é apresentada como thou mayest, expressão inglesa que pode ser traduzida por “tu podes”. Embora essa interpretação literária não corresponda a uma tradução consensual do hebraico original, Steinbeck encontrou nela uma ideia que ultrapassa qualquer contexto religioso: a possibilidade humana de escolher.


A palavra pode ser interpretada à luz da religião, da filosofia ou mesmo da política, mas sua força está justamente naquilo que transcende todas elas. Existe uma diferença imensa entre uma ordem, uma previsão e uma possibilidade. A ordem determina o que deve ser feito. A previsão anuncia o que acontecerá. A possibilidade deixa o futuro em aberto. Não exige, não promete, não garante. Apenas reconhece que as coisas podem acontecer de outra maneira.


Ninguém escolhe onde nasce, a época em que chega ao mundo, os pais que terá ou as circunstâncias que acompanharão seus primeiros passos. Não escolhemos as perdas que nos surpreendem, as despedidas que chegam cedo demais ou as oportunidades que desaparecem antes mesmo de percebermos que existiam. A vida começa muito antes de termos consciência de que estamos vivendo. Quando finalmente aprendemos a fazer perguntas, muitas respostas já foram determinadas por acontecimentos sobre os quais jamais tivemos qualquer influência.


E, no entanto, não somos apenas aquilo que nos aconteceu.


Entre o acontecimento e a resposta existe, às vezes, um espaço. Pode ser pequeno, quase imperceptível, talvez apenas o instante necessário para decidir se uma palavra será pronunciada ou permanecerá em silêncio. Uma discussão pode terminar com uma porta batendo ou com alguém disposto a escutar. Uma amizade interrompida pode permanecer esquecida durante décadas ou ser recuperada por uma mensagem inesperada. Uma carta escrita no calor da indignação pode ser enviada imediatamente ou permanecer sobre a mesa até que a manhã seguinte ofereça outra perspectiva.


São escolhas aparentemente pequenas, mas nem sempre insignificantes. Uma palavra pode destruir uma relação construída ao longo de muitos anos. Um pedido de desculpas pode recuperar algo que parecia definitivamente perdido. Uma decisão tomada em poucos segundos pode acompanhar uma pessoa pelo resto da vida.


A liberdade de escolher, entretanto, não é apenas um privilégio. É também uma responsabilidade. Seria mais confortável acreditar que nossas atitudes são consequências inevitáveis da educação que recebemos ou das circunstâncias que nos cercam. Assim, nossos erros seriam acidentes do destino, nossas omissões seriam inevitáveis e nossas pequenas covardias poderiam ser justificadas como respostas naturais a situações difíceis. Mas a possibilidade de escolher perturba essa tranquilidade. Mesmo quando não somos responsáveis pelo que aconteceu, podemos ter alguma responsabilidade pelo que fazemos depois.


Isso não significa que todos disponham das mesmas alternativas. Para alguém que precisa escolher entre comprar alimentos e pagar o aluguel, a liberdade tem contornos muito diferentes daqueles que conhece quem nunca precisou enfrentar essa decisão. Uma pessoa submetida à violência, à doença ou ao medo não encontra diante de si as mesmas oportunidades de alguém protegido dessas circunstâncias. Reconhecer a liberdade humana não significa ignorar seus limites. Talvez por isso devêssemos ser mais cuidadosos ao julgar as decisões dos outros. Raramente conhecemos todas as circunstâncias que levaram alguém a agir de determinada maneira.


Há também escolhas que não dizem respeito ao que fazemos, mas àquilo em que acreditamos. Vivemos cercados por uma estranha exigência de coerência. Espera-se que nossas opiniões permaneçam fiéis ao que dissemos ontem e que nossas convicções resistam às experiências de amanhã, como se amadurecer significasse apenas acumular certezas.


Entretanto, uma pessoa pode passar décadas defendendo determinada ideia e, diante de uma experiência inesperada, descobrir que estava enganada. Pode reencontrar alguém de quem se afastou por uma antiga divergência e perceber que o tempo tornou aquela diferença irrelevante. Pode abrir um livro, ouvir uma história ou conhecer uma realidade distante e compreender que o mundo é mais complexo do que imaginava.


Mudar de opinião não precisa ser uma demonstração de fraqueza. Há coragem em reconhecer um erro, dignidade em reconsiderar uma escolha e grandeza em admitir que alguém de quem discordávamos tinha alguma razão. Existe uma forma silenciosa de liberdade em descobrir que não precisamos defender eternamente aquilo em que um dia acreditamos.


O passado explica muitas coisas, mas não precisa determinar todas.


Isso vale para as pessoas e também para as sociedades. Nenhuma comunidade está necessariamente condenada a repetir indefinidamente seus erros. Nenhuma tradição precisa permanecer intocável apenas porque atravessou gerações. Nenhuma injustiça se torna aceitável por ter existido durante muito tempo. As sociedades também podem aprender, reconsiderar, reparar e recomeçar. A história registra tanto transformações que pareciam impossíveis quanto oportunidades perdidas porque o medo, o orgulho ou a indiferença prevaleceram sobre a disposição de mudar.


A possibilidade de escolher não garante que a escolha será feita. Talvez essa seja a dimensão mais desconcertante de timshel. A palavra não promete que a generosidade vencerá o egoísmo ou que a coragem será mais forte que o medo. Apenas reconhece que essas alternativas continuam existindo.


Na vida cotidiana, essa liberdade raramente se apresenta como uma grande decisão. Muitas vezes, aparece discretamente. Está no telefone que alguém segura durante alguns minutos antes de finalmente ligar para um velho amigo. Na mão que hesita antes de tocar outra. Na visita que vinha sendo adiada há anos. No silêncio de quem decide escutar uma história que já ouviu muitas vezes, simplesmente porque sabe o quanto é importante para quem a conta.


Talvez muitas das coisas mais importantes de uma vida tenham começado com decisões que, naquele momento, pareciam insignificantes. E talvez algumas das maiores perdas tenham nascido de oportunidades que deixamos passar, acreditando que haveria sempre outra ocasião.


O arrependimento nos prende ao que poderia ter sido. A possibilidade nos convida a olhar para aquilo que ainda pode acontecer. Não podemos voltar ao início de uma conversa e retirar as palavras que pronunciamos. Não podemos recuperar todos os encontros perdidos, desfazer todas as despedidas ou percorrer novamente os caminhos que abandonamos. O tempo não nos oferece uma segunda versão da mesma vida, mas talvez nos permita escrever de outra maneira as páginas que ainda faltam.


Há portas que se fecham para sempre. Há escolhas que já não podemos desfazer, palavras que não conseguimos recolher e oportunidades que jamais retornarão. Mas reconhecer essas perdas não significa que todas as possibilidades tenham desaparecido.


Talvez seja essa a verdadeira beleza de timshel. Não a promessa de que tudo dará certo, nem a ilusão de que podemos mudar tudo, mas a lembrança de que, apesar de tudo o que já aconteceu, nem tudo está decidido.


O passado não pode ser reescrito. Mas o futuro ainda guarda páginas em branco, e algumas delas dependem das escolhas que fazemos para serem escritas.




Sobre o autor


David Gertner, Ph.D. é escritor, ensaísta e professor aposentado. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon. Atualmente trabalha em novos projetos de ficção filosófica, entre eles A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim), O Instituto de Estudos Avançados do Silêncio e O Departamento de Pesquisas Avançadas Sobre o Significado do Tempo. Seus ensaios exploram temas ligados à memória, identidade, cultura, tecnologia, ética, política, história e condição humana. Mais informações em www.davidgertner.com


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