A Coragem de Desconfiar das Próprias Certezas
- David Gertner
- há 2 minutos
- 3 min de leitura

Poucas coisas nos dão tanto conforto quanto a sensação de estar certo. A certeza organiza o mundo, reduz a ansiedade, nos poupa do esforço de reconsiderar. Ela nos dá chão. Mas é justamente aí que reside o risco: quando a certeza deixa de ser apoio e passa a ser abrigo permanente, ela nos impede de ver.
Desconfiar das próprias certezas não é fraqueza intelectual. É, ao contrário, um dos gestos mais exigentes de maturidade. Significa admitir que aquilo que pensamos saber foi construído a partir de experiências limitadas, afetos específicos, medos não reconhecidos, narrativas herdadas. Nossas convicções não nascem no vácuo. Elas carregam história, contexto, interesses — e, muitas vezes, conveniência.
Vivemos um tempo que premia a afirmação rápida e pune a dúvida. Opiniões fortes circulam melhor do que perguntas honestas. A ambiguidade incomoda. A revisão de posição é vista como recuo. Mas pensar nunca foi um ato confortável. Pensar de verdade exige fricção. Exige suportar o desconforto de perceber que talvez não tenhamos entendido tudo. Ou que entendemos apenas uma parte — e tomamos o fragmento como totalidade.
Desafiar nossas certezas não significa abandonar valores, nem cair no relativismo fácil em que tudo vale o mesmo. Significa algo mais difícil: testar as bases sobre as quais esses valores se sustentam. Perguntar de onde vieram. A quem servem. Quem ficou de fora quando foram formulados. O que eles silenciam enquanto afirmam.
Há uma diferença fundamental entre convicção e rigidez. A convicção dialoga. A rigidez se defende. A convicção pode escutar sem se dissolver. A rigidez escuta apenas para responder. Quando deixamos de desafiar nossas próprias certezas, passamos a confundi-las com identidade. E então qualquer questionamento soa como ameaça pessoal.
Talvez por isso seja tão difícil recuar um passo e dizer: “posso estar errado”. Essa frase não diminui ninguém. Ela nos devolve humanidade. Abre espaço para o outro existir não como erro a ser corrigido, mas como possibilidade de ampliação do nosso olhar.
Desconfiar das próprias certezas é também um antídoto contra o dogmatismo — ideológico, moral, tecnológico, afetivo. É o que impede que a causa vire cegueira, que a convicção vire intolerância, que a verdade vire instrumento de exclusão. Ao longo da história, muitos dos maiores danos não foram causados por falta de certeza, mas por certeza demais — certeza não examinada, não questionada, não atravessada pela dúvida.
A dúvida, quando honesta, não paralisa. Ela refina. Ela limpa o excesso, separa o essencial do acessório, nos obriga a argumentar melhor, a ouvir com mais cuidado, a escolher com mais responsabilidade. Ela não elimina a ação — ela a torna mais consciente.
Talvez o gesto mais ético do nosso tempo não seja afirmar mais alto, mas perguntar melhor. Não seja defender com mais veemência, mas examinar com mais rigor. Em um mundo saturado de respostas prontas, desconfiar das próprias certezas pode ser um raro ato de lucidez — e, quem sabe, uma forma silenciosa de coragem.
Bio
David Gertner, Ph.D., é escritor e professor aposentado. Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu, vive por mais de três décadas nos Estados Unidos, onde construiu carreira acadêmica e publicou extensamente. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David (Amazon) e dedica-se hoje à escrita de ensaios e livros sobre identidade, memória, ética, silêncio, tempo e a condição humana.
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