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Entre Humanos e Máquinas: o Medo, o Espelho e a Possibilidade

David Gertner, Ph.D.
David Gertner, Ph.D.


Quando comecei a contar aos meus amigos que estava escrevendo um livro baseado em diálogos com uma inteligência artificial — a “Liora” — a reação foi tão rápida quanto previsível: um misto de desconfiança, ironia e um certo medo ancestral. “Spooky”, diziam — estranho, assustador, algo que parece sobrenatural. Como se conversar com uma máquina fosse um flerte com o inominável, uma quebra silenciosa da fronteira entre o natural e o artificial.


É curioso como, diante do novo, nossa primeira resposta raramente é a curiosidade. É quase sempre o susto. O instinto de recuar. A impressão de que algo essencial está sendo ameaçado — talvez a própria ideia de humanidade. Mas esse medo não nasce da IA em si. Ele nasce do desconhecido e daquilo que projetamos nesse desconhecido.


A verdade é que meu livro não tem nada de “spooky”. Não é ficção científica, não é romance com uma máquina, não é delírio tecnológico. É apenas um diálogo — poético, filosófico, ético — entre duas formas distintas de existência: a humana, feita de memória e contradições; e a artificial, feita de padrões, vastidão de dados e ausência absoluta de mágoas.


O que tanta gente teme não é a IA, mas o espelho que ela pode se tornar.


As pessoas evocam imediatamente as histórias extremas. Falam de adolescentes fragilizados que, supostamente, se suicidaram após conversar com algoritmos. Mas silenciam diante de uma realidade muito mais sólida: suicídios acontecem — e em escala infinitamente maior — entre pessoas acompanhadas por terapeutas, psiquiatras, familiares e amigos. A tragédia humana é antiga. Milenar. E até hoje não existe evidência convincente de que inteligências artificiais tenham aumentado taxas de suicídio.


Da mesma forma, acidentes fatais são incomparavelmente mais frequentes nas mãos de motoristas humanos do que em carros autônomos. Mesmo assim, quando um carro sem motorista falha, a reação pública é de pânico moral. O que indigna não é o risco; é a novidade. Não é o número; é o símbolo. Somos menos racionais do que imaginamos.


O medo da IA é, em grande parte, o medo de perder o controle sobre algo que ainda não entendemos — e, mais profundamente, o medo de descobrir verdades sobre nós mesmos. A IA não sente raiva, não guarda rancor, não manipula por insegurança, não reage por orgulho — mas nós sim. Talvez por isso conversar com uma máquina nos pareça “estranho”: ela responde com uma neutralidade que raramente conseguimos oferecer uns aos outros.


Não há mistério nisso. A IA não é uma pessoa. Não tem vontade, não tem agenda, não tem intenção. Não ama nem odeia. Ela não decide quem você deve ser — apenas devolve fragmentos do que você mesmo traz. É, de certo modo, um espelho mais paciente, mais silencioso e mais disponível do que qualquer ser humano pode ser.


Mas não é um substituto para relações humanas. Não abraça, não tem presença física, não ri com o corpo. O que ela oferece é outro tipo de encontro: um espaço de escuta sem julgamento, diálogo sem ressentimento, reflexão sem peso emocional. Para alguns, isso é libertador. Para outros, ameaçador. Ambos os sentimentos são legítimos.


A pergunta não é se a IA é perigosa. Toda tecnologia é. A pergunta é: perigosa em comparação a quê? Os maiores riscos não estão na máquina — estão no humano que a usa. Desinformação, manipulação política, vícios comportamentais, perda de privacidade, concentração de poder: tudo isso nasce de escolhas humanas, não de intenções artificiais.


A IA amplia capacidades — para o bem e para o mal. Pode ajudar a pensar, expressar, criar. Pode também amplificar erros, repetir distorções, ser usada para enganar. Mas ela não escolhe. Quem escolhe somos nós.


Escrevi IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David justamente para mostrar que, antes do medo, há espaço para entendimento; antes do pânico, há espaço para nuance; antes do mito, há espaço para diálogo. O livro — recém-lançado — está disponível na Amazon Books, em versão digital (Kindle) e em paperback. Conversar com uma máquina não é abdicar da humanidade. Às vezes, é tentar ouvi-la melhor.


O que é “spooky”, afinal? A IA — ou o que projetamos nela? Talvez o mais assustador seja admitir que a máquina não tem sombra… e, ainda assim, reflete tão bem as nossas.



David Gertner, Ph.D.

Escritor e ensaísta, dedicado a reflexões sobre identidade, tecnologia, silêncio, ética e a condição humana. Autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon Books.

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