NARRATIVAS...
- Leo Viana
- há 39 minutos
- 5 min de leitura

Ivanildo desceu do carro do aplicativo cuspindo marimbondo. Resmungava sem parar, xingava e voltava a xingar. Ninguém sabia exatamente a razão da ira do Vanil, que era como a turma da rua o chamava desde garoto.
Quem viu a cena afirma que ele teria usado palavras muito ofensivas, mas não se referia diretamente ao condutor do veículo do qual desembarcara. Em sua catarse radical, parecia dizer coisas absolutamente pertinentes sobre o sistema opressor sob o qual vivem trabalhadores e trabalhadoras, incluindo aqueles que atualmente afirmam preferir ser “empreendedores” e não passam de entregadores de correspondência ou transportadores de passageiros em aplicativos controlados por empresas de tecnologia, sem vínculos e sendo eles mesmos responsáveis por tudo, sem apoio institucional de qualquer natureza.
O Vanil era boa gente demais. Bom de bola desde garoto, frustrou o pai ao abrir mão de uma carreira profissional no futebol, que tinha tudo para começar bem no tradicional clube do bairro, que até disputava o campeonato estadual.
Aos 17, quando seria promovido a profissional, passou no vestibular para engenharia numa universidade federal e abandonou os gramados. Não daria mais os passes precisos que o caracterizavam como um meio-campista de alta estirpe, ou a marcação dura e leal que garantia a proteção dos zagueiros sem faltas ou violência e os consequentes cartões. O pai quase teve um ataque cardíaco. Contava com um futuro tranquilo garantido pela agilidade dos pés do Vanil. A mãe confiava no bom senso do filho e não discutia a decisão. Os colegas da rua e do clube não entendiam.
— Porra, Vanil!!
Ninguém conseguia entender a decisão do craque do time, o cara que deixava todo mundo na cara do gol e ainda garantia a defesa. Seria o capitão do time se quisesse. Podia ir para a Europa e enriquecer antes de tirar carteira de motorista. Mas resolveu estudar engenharia. Gostava de matemática e era bom aluno, em paralelo com uma vida de concentrações, treinos e jogos.
Mas voltemos ao início. O Vanil saiu do carro possesso. A indignação não dava espaço para diálogo ou respiro.
Ele fez uma carreira brilhante na engenharia. Começou estagiário numa grande empresa de projetos e agora, ainda jovem, aos 35 anos, era um renomado calculista de estruturas.
Já tinha assinado os cálculos de grandes — e seguras — barragens de hidrelétricas no Brasil e no exterior, um sem-número de edifícios, pontes e viadutos. Mas talvez não estivesse preparado para o que aconteceria no veículo de aplicativo que o levava de volta ao bairro onde sua família ainda morava e que visitava sempre.
O nome do motorista, Abner, não lhe dizia nada. Percebeu que não era exatamente dos mais bem avaliados, com a nota abaixo de 4,9, mas isso não era algo que o incomodasse.
Nos primeiros minutos da viagem, depois do “bom dia” protocolar e de algum comentário sobre o tempo, que parecia anunciar um temporal, foi tudo bem. Mas o Vanil logo foi absorvido por uns cálculos que precisava revisar e ficou em silêncio.
O motorista começou a observar com atenção o passageiro que levava. O Vanil, ao se sentir observado, levantou o olhar para o retrovisor e deu de cara com um de seus maiores adversários do tempo do futebol, o implacável Nego B.
Não tremeu. O Vanil não era de tremer. Mas as lembranças que vieram eram boas e más. Entre as más, não esqueceria jamais da marcação dura e violenta do Nego B toda vez que o Vanil passava do meio-campo nas recorrentes partidas entre os dois maiores times do subúrbio. Disputavam, os grandes rivais, quatro ou cinco jogos por ano entre si e, ao longo dos cinco anos em que defendeu as categorias de base, esteve em todos e foi marcado pelo mesmo implacável cabeça de área do time oposto.
Em mais de vinte jogos, sempre aquela sombra. Conseguiu dar alguns passes importantes e perdeu poucas partidas para eles, mas em nenhuma delas chegou a ser o craque que todos esperavam ver. Era anulado. O marcador, que nem era craque e de quem não se esperava grande coisa, era especialmente eficiente diante do Vanil.
E foi o Nego B, agora o motorista Abner, quem puxou assunto e perguntou se ele era o Vanil, do Várzea Club.
Vanil respondeu, sem muito entusiasmo, que sim. Mas aquele tempo tinha ficado no passado; agora fazia outra coisa e não jogava nem pelada de fim de semana.
Nego B cresceu com a resposta desanimada. Disse que Vanil tinha largado o futebol por causa de sua marcação eficiente, que não o deixava jogar, e completou dizendo que, se ele agora era infeliz e não jogava nem pelada, era também porque sabia que não jogava aquele futebol todo e que tinha “fugido” do futebol para não passar vergonha diante de outras torcidas.
O Vanil, claro, ficou desconfortável com aquela conversa. Para piorar, ao fim das afirmações, o Nego B prosseguiu dizendo que ele, sim, era um cara realizado: tinha um carro alugado para outro motorista e, para fazer um extra, dirigia aquele ali, mas se sustentava bem com o outro. Morava no mesmo quintal, tinha duas crianças já na escolinha de futebol, a mulher em casa e fazia os churrasquinhos dele no fim de semana. Só temia mesmo que os comunistas viessem acabar com a sua vida boa.
Vanil só ouvia. Não deixou de reparar no carro velho e sujo, da categoria mais barata do aplicativo. Tinha feito várias opções e esse foi o primeiro que aceitou.
Em silêncio, com um sorriso amarelo e constrangido, passou em revista tudo o que já tinha feito, inclusive no tempo do futebol. Ganhou campeonatos, foi o craque do jogo diversas vezes. Deixou o futebol porque gostava mais de matemática e só. O mundo não era cheio de Negos B. Seria craque em qualquer time de qualquer lugar do mundo. Mas gostava mesmo era de equações das quais o Nego B jamais ouviria falar.
Agora viajava o mundo, conhecia todos os continentes, falava com autoridades, discutia orçamentos bilionários. Era ético e sério, jamais ganhara um centavo fora do efetivamente calculado e só não tirara a família do bairro por exigência deles mesmos, que não se sentiriam felizes fora de seu próprio ambiente — mas podia fazer isso a qualquer hora, se eles topassem.
Apesar de tudo que construiu, sem trocadilho, ainda era o garoto atrás da bola, magro e ágil, que sonhava com um mundo melhor e solidário para todos, uns jogando para melhorar a condição dos outros, como num time.
O discurso recalcado, vingativo e autocentrado do Nego B foi muito revelador para o Vanil. Dava aquela sensação ruim de que as coisas não têm mais jeito. O próprio Nego B também não fez fortuna com o futebol, e sua breve carreira acabou quando, já no time profissional, encarou um marcador menos leal que o Vanil e que revidou violência com violência. Nunca mais recuperou o tornozelo e, aos 20 anos, trocou o campo pelo volante, não sem antes fazer umas besteiras que lhe renderam um ano de cana dura em Bangu.
Agora vinha com esse discursinho anticomunista de empreendedor.
Mas não valia a pena discutir. Melhor esbravejar sozinho depois.
Na chegada, despediu-se sem dizer nada mais que um “até qualquer hora”.
E saiu, aí sim, xingando, raivoso.
Mas quando me contou a história, já estava rindo de novo, entre um chope e outro, depois de um bloco de carnaval.
“Narrativas”, eles dizem, né?
Rio de Janeiro, fevereiro de 2026.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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