O Sonho Impossível como Jornada, Não Destino
- David Gertner
- há 1 hora
- 2 min de leitura

Alguns sonhos não foram feitos para acontecer.
Foram feitos para nos acompanhar.
Crescemos aprendendo a sonhar como quem faz planos: com metas, prazos, métricas, resultados. Sonhar virou projeto. E projetos, quando falham, viram frustração. Mas há sonhos que não cabem nesse formato. Não pedem execução. Pedem permanência.
São os sonhos impossíveis.
Não impossíveis por falta de esforço, talento ou mérito. Impossíveis porque desafiam os limites do tempo, da biologia, da história ou da condição humana. O sonho de voltar a um lugar que já não existe. De reparar uma perda irreparável. De ser compreendido sem tradução. De viver em um mundo menos cruel do que o mundo que temos.
Esses sonhos não morrem quando percebemos que não se realizarão. Eles mudam de função.
Em vez de destino, tornam-se bússola. Em vez de promessa, tornam-se pergunta. Não nos dizem para onde vamos, mas revelam quem somos quando ninguém está olhando.
Há algo de profundamente contemporâneo nessa tensão. Vivemos em uma época obcecada pela possibilidade: tudo pode, tudo deve, tudo é alcançável — desde que se queira o suficiente. O fracasso, então, vira culpa. A desistência, covardia. O limite, defeito pessoal.
Mas e se alguns limites forem constitutivos?
E se a impossibilidade não for falha, mas moldura?
Talvez o valor de certos sonhos esteja justamente em nunca se completarem. Como horizontes: caminham conosco, mas não se deixam tocar. São eles que nos impedem de reduzir a vida ao que é mensurável, produtivo ou eficiente.
Há quem sonhe com justiça absoluta. Com amor sem perda. Com pertencimento sem exclusão. Com verdade sem ruído. Sabemos que não chegarão inteiros. Ainda assim, caminhar em sua direção muda a forma como escolhemos, como falamos, como cuidamos.
Sonhos impossíveis não pedem aplauso. Pedem honestidade.
Eles nos lembram de que viver não é apenas alcançar, mas sustentar tensões. Não é vencer sempre, mas continuar mesmo quando a vitória não existe. Não é transformar tudo, mas recusar-se a aceitar tudo como está.
Talvez amadurecer seja isso: aprender a carregar sonhos que não se realizam — sem cinismo, sem ressentimento, sem desistir de sonhar.
No fim, os sonhos possíveis constroem carreiras, casas, biografias.
Os sonhos impossíveis constroem consciência.
E talvez sejam eles, silenciosamente, que nos tornam humanos.
David Gertner, Ph.D.
Escritor e professor aposentado. Autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, ensaio narrativo sobre ética, tecnologia e a condição humana, disponível na Amazon.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade.
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