O Tempo Continua

Passamos pela vida, deixamos lembranças e desaparecemos da memória. Mas talvez algo de nós continue muito depois do esquecimento.
Por David Gertner, Ph.D.
Há um momento, em algum lugar da infância, em que somos colocados no chão e convidados a caminhar.
Duas mãos nos esperam a poucos passos de distância. Alguém sorri, chama nosso nome, estende os braços. Damos um passo, depois outro, talvez caiamos. Não sabemos que aquele pequeno percurso é o começo de uma longa despedida.
Passaremos a vida inteira aprendendo a caminhar para longe de alguma coisa.
Da casa onde nascemos. Das mãos que nos seguraram. Das pessoas que acreditávamos que estariam sempre ali. E, pouco a pouco, de quem um dia fomos.
Mas há algo estranho nessa viagem: nunca partimos inteiramente.
A criança continua escondida em algum lugar do adulto. Reaparece diante de um cheiro, de uma música, de uma fotografia esquecida. Às vezes, basta ouvir uma voz parecida com a de alguém que amamos para que uma porta se abra e estejamos novamente em uma casa que já não existe.
O tempo não devolve o passado. Mas a memória, por alguns instantes, parece contrariá-lo.
Quem nunca desejou voltar a uma tarde qualquer, sem nada de extraordinário, apenas para encontrar alguém que já não está aqui? Sentar-se à mesa, ouvir uma história repetida, reconhecer um sorriso. Não para mudar o que aconteceu, mas simplesmente para estar ali mais uma vez.
Na época, não sabíamos que aquela tarde seria preciosa.
Quase nunca sabemos.
Vivemos esperando pelos grandes acontecimentos. O primeiro amor, uma conquista, uma viagem, o nascimento de um filho. Imaginamos que a felicidade mora nesses momentos aguardados durante anos.
E, no entanto, quando olhamos para trás, são muitas vezes as pequenas coisas que permanecem.
Uma mão procurando a nossa no escuro. Uma criança adormecida em nosso colo. Alguém nos esperando à porta. Uma conversa sem importância que daríamos tudo para repetir.
Talvez a vida seja feita principalmente daquilo que não percebemos enquanto acontece.
Há um tempo em que somos o futuro de alguém. Nossos pais nos observam crescer, imaginam o que seremos, preocupam-se com caminhos que ainda não conhecemos. Querem nos proteger de dores que sabem inevitáveis.
Depois, um dia, somos nós que esperamos uma criança dar seus primeiros passos. E compreendemos, talvez pela primeira vez, o que significava aquele olhar.
Queremos que nossos filhos sejam livres, mas sentimos a dor discreta de cada distância conquistada. Ensinamos a partir e precisamos aprender a deixá-los ir. Até descobrirmos que já não somos o centro de suas vidas. E que isso também pode ser uma forma de felicidade.
Mais tarde, talvez cheguem outras crianças. Pequenas mãos voltam a procurar as nossas. Histórias contadas aos filhos reaparecem diante dos netos. Uma canção esquecida retorna. Uma brincadeira atravessa gerações.
Por um instante, parece que o tempo desenhou um círculo.
Mas ele continua.
Um dia, olhamos no espelho e encontramos traços de nossos pais. Um gesto, uma expressão, a maneira de franzir a testa ou de sorrir. Reconhecemos em nós alguma coisa deles que julgávamos perdida.
Também percebemos que algumas cadeiras ficaram vazias.
A princípio, a ausência parece ocupar toda a casa. Depois, aprende a conviver conosco. Não desaparece. Apenas muda de lugar. Descobrimos, então, que a ausência também pode ser uma forma de presença.
Há pessoas que continuam presentes nas palavras que usamos, nas escolhas que fazemos, na maneira como tratamos os outros. Às vezes, repetimos uma frase e só depois reconhecemos de quem era aquela voz.
A saudade talvez seja isso: a presença de alguém que já não pode voltar.
E então começamos a compreender que também nós deixaremos ausências.
Haverá um último abraço, uma última conversa, uma última vez em que alguém ouvirá nossa voz. Quase certamente não saberemos que será a última. As despedidas definitivas raramente anunciam sua chegada.
Talvez por isso não devêssemos adiar o afeto, guardar palavras de carinho para amanhã, permitir que o orgulho se transforme em silêncio ou esperar uma ocasião especial para oferecer ternura.
O tempo não espera por nossas reconciliações.
E há uma pergunta que, cedo ou tarde, talvez todos façamos: o que permanecerá de nós?
Pensamos nos filhos, nos netos, nos amigos. Talvez em livros, fotografias, cartas, objetos guardados em gavetas.
Durante algum tempo, alguém se lembrará. Nosso nome surgirá em uma conversa. Uma fotografia despertará um sorriso. Uma história será contada à mesa. Talvez uma criança pergunte quem era aquela pessoa de quem todos falam com carinho.
Mas as gerações passam. As fotografias perdem seus nomes. As histórias se modificam. Chegará um tempo em que talvez ninguém saiba quem fomos.
Costuma-se dizer que uma pessoa morre definitivamente quando ninguém mais se lembra dela.
Talvez não seja verdade.
Há rostos que desapareceram de nossa memória, nomes que já não conseguimos recordar, encontros dos quais não guardamos sequer uma imagem. Mas quem pode afirmar que essas pessoas desapareceram inteiramente de nós?
Talvez uma palavra esquecida tenha mudado nossa maneira de pensar. Um gesto de carinho recebido há muitas décadas talvez sobreviva na ternura que hoje oferecemos a alguém. Uma experiência da qual já não nos lembramos pode ter ajudado a formar a pessoa que nos tornamos.
Somos feitos também de presenças que já não conseguimos reconhecer.
E, assim como carregamos dentro de nós pessoas esquecidas, talvez um dia continuemos presentes em outras vidas, sem que ninguém saiba de onde veio aquilo que deixamos.
Uma palavra de encorajamento pode mudar um destino. Um gesto de generosidade pode ensinar outro gesto. Uma criança que recebeu carinho talvez aprenda a oferecê-lo.
E esse carinho poderá atravessar gerações.
Talvez um dia alguém trate um desconhecido com delicadeza porque aprendeu esse gesto com outra pessoa, que o aprendeu com outra, que um dia o recebeu de nós.
Ninguém saberá. Não haverá fotografia, homenagem ou nome a recordar. Mas alguma coisa terá continuado.
Não se trata de imortalidade. Nada garante que nossas marcas resistam para sempre, nem que sejam todas boas. Também transmitimos medos, dores e feridas. Há palavras que permanecem como consolo e outras que continuam machucando muito depois de esquecidas.
Talvez por isso importe tanto aquilo que escolhemos deixar nos outros.
O legado de uma vida não está apenas no que construímos ou naquilo pelo qual seremos lembrados. Está também no que ajudamos outras pessoas a se tornar, mesmo sem jamais conhecer as consequências.
Um dia, aquelas mãos que nos ensinaram a caminhar já não estarão aqui. As nossas também deixarão de segurar outras mãos.
Mas, entre o primeiro passo e a última despedida, teremos tocado muitas vidas. Algumas por décadas. Outras por um instante. E nunca saberemos inteiramente o que ficou de cada encontro.
O tempo continua.
Em algum lugar, uma criança será colocada no chão e convidada a caminhar. Duas mãos estarão à sua espera. Alguém sorrirá, chamará seu nome, estenderá os braços. Ela dará um passo, depois outro, talvez caia. Não saberá que aquele pequeno percurso é o começo de uma longa despedida.
E talvez, em algum daqueles gestos, exista algo de nós. Mesmo quando ninguém mais souber nosso nome ou se lembrar de que um dia estivemos aqui.
Não como lembrança, nome ou rosto, mas como parte invisível daquilo que alguém se tornou.
O tempo continua.
E talvez nós também.
David Gertner, Ph.D. é escritor, ensaísta e professor aposentado. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon. Atualmente trabalha em novos projetos de ficção filosófica, entre eles A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim), O Instituto de Estudos Avançados do Silêncio e O Departamento de Pesquisas Avançadas Sobre o Significado do Tempo. Seus ensaios exploram temas ligados à memória, identidade, cultura, tecnologia, ética, política, história e condição humana. Mais informações em www.davidgertner.com
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