PROFISSIONAL DE TI
- Léo Viana

- 7 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 10 de dez. de 2025

O Dino era um profissional fruto do acaso. Aparentemente, tinha um não tão perceptível conjunto de características capaz de incluí-lo no abrangente espectro autista. Mas, nascido num mundo ainda sem diagnósticos tão precisos e, mais ainda, na periferia desse mesmo mundo — na periferia das grandes cidades desiguais que abrigam a maioria da população — cresceu cheio de dificuldades na escola, bullying, pouco ou nenhum namoro, frustrações diversas, no limite do admissível. Só se encontrou, definitivamente, quando o desenvolvimento da tecnologia de informática o apresentou à possibilidade de trabalhar com TI.
Longe dele produzir “conteúdo”, fazer dancinhas ou expor sua vida — vida marcada mais por uma exposição infeliz e deletéria, pelo menos sob sua ótica pessimista e sofrida. Com a descoberta da tecnologia, entretanto, descobriu também um tipo de hiperfoco que o tornou um expert em tudo que envolve a transmissão de dados, a gestão de grandes bancos de dados, a arquitetura de redes e correlatos. Um profissional requisitado e bem pago para resolver problemas tecnológicos em toda parte.
E foi isso o que fez do Dino um viajante frequente em aeroportos, normalmente usufruindo de salas VIP e viagens confortáveis, nos assentos da frente, pagos por seus ávidos contratantes.
Nos seus vinte anos de ininterrupta atividade, viu a mudança no perfil de quem dividia os espaços nos aeroportos. Como era de seu feitio tímido, reservado e hiperfocado, não prestava muita atenção ao seu entorno e nem interagia, salvo em último caso, mas a repetição é inclemente até com os mais distraídos.
No início, era perceptível a presença de políticos, fazendeiros ricos e empresários em geral. Não era possível determinar o grau de honestidade de ninguém pela simples observação — quem tivesse coisas a esconder não deixaria suspeitas visíveis. Os ternos azuis ou pretos dos homens eram uma regra praticamente só quebrada por ele e por alguns artistas ou atletas. Entre as mulheres, um pouco mais de cor, mas muita sobriedade e conversas em tom baixo eram dominantes.
Aos poucos, com a desconstrução do estereótipo do político tradicional, passaram a aparecer indivíduos, homens e mulheres, um pouco mais descolados. Uma sandália aqui, uma camiseta ali. O perfil dos “empresários” também mudou. Os grandes fazendeiros sumiram (talvez tenham comprado seus próprios aviões…). Uma gente mais exibida, com cordões de ouro e diamantes à mostra, apareceu e também sumiu. Surgiu então uma gente relativamente nova, de sapatênis e laptop, que falava alto nas salas de embarque, combinando palestras e dando conselhos que variavam de investimentos a relacionamentos pessoais, ao gosto do freguês, elogiando o governo ou a oposição, prometendo um futuro melhor ou pior “à la carte”.
Da primeira vez que ouviu os brados autorreferentes de um coach, Dino não entendeu nada. Foi surpreendido e trocou de lugar.
Na segunda vez, chegou a prestar alguma atenção. Ouviu coisas como “jornada”, “resiliência”, “mindset”, “assessment” e “brainstorming”, empregados em contextos diferentes dos que ele já conhecia, lidando há tempos com empresas variadas.
Uma vez, já acostumado com a mudança e usando fones de ouvido para se precaver da gritaria que os coaches fazem ao telefone para divulgar suas qualidades aos que estão próximos, sempre potenciais contratantes, abordou um deles e descobriu que havia sido contratado pelo mesmo empresário que requisitara seus serviços de TI — um exportador de peixes amazônicos que provavelmente nem sabia pescar. Pesquisou a respeito.
Notou que algumas pessoas cumprimentavam o coach como um guru: alguns agradeciam por terem alcançado objetivos, outros lembravam palestras motivacionais.
Dino não se impressionou com o homem de sapatênis e roupa esportiva de marcas caras, mas perguntou há quanto tempo ele prestava serviços ao empresário contratante comum. O coach respondeu sem pestanejar que atendia o empresário havia três anos.
Dino desistiu de embarcar.
No estudo de caso que fizera ao aceitar a proposta, viu que o gargalo da atividade era a TI, uma vez que o empresário apostara numa gestão cheia de chavões e absolutamente sem técnica. Uma correção de rumos na dinâmica das comunicações e da transmissão de dados, na gestão de estoque e de fornecedores, recuperaria facilmente a fluidez dos negócios.
Até ele, autista nível 1 de suporte, já tinha entendido tudo.
O pequeno pin espetado na camisa do coach, com a efígie de um certo ex-presidente, foi só a cereja do bolo.
— Eles que se danem! — pensou.
Mas devolveu o dinheiro pago pelo empresário imbecil.
Pensando bem, já era hora de se aposentar. TI paga bem.
Rio de Janeiro, dezembro de 2025.
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