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Quem sabe, um dia acontece...


Por David Gertner, Ph.D.
Por David Gertner, Ph.D.

Sobre a silenciosa força da imaginação humana e as coisas que parecem impossíveis — até o dia em que deixam de ser.



“Hope is not the conviction that something will turn out well, but the certainty that something makes sense, regardless of how it turns out.”

— Václav Havel

[“Esperança não é a convicção de que algo dará certo, mas a certeza de que algo faz sentido, independentemente de como termine.”]


Às vezes o mundo parece imóvel, como uma paisagem antiga que atravessou séculos sem jamais mudar.


Conflitos herdados parecem antigos demais para terminar. Certas injustiças parecem tão profundamente enraizadas que passam a ser confundidas com a própria ordem natural das coisas. Povos se acostumam a viver separados por fronteiras visíveis e invisíveis, e gerações inteiras crescem acreditando que aquilo que sempre foi assim continuará sendo.


Com o tempo, o provisório começa a parecer permanente.


É assim que a realidade se instala no imaginário humano: não apenas como aquilo que existe, mas como aquilo que parece impossível de mudar.


E, no entanto, a história guarda uma ironia silenciosa.


Muitas das coisas que hoje nos parecem naturais nasceram exatamente como aquilo que parecia impossível.


Houve um tempo em que muros pareciam eternos. Fronteiras pareciam gravadas para sempre no mapa do mundo. Guerras pareciam destinadas a atravessar séculos. Desigualdades pareciam parte inevitável da condição humana.


E, no entanto, em algum momento — quase sempre de forma lenta e inesperada — algo começa a se mover.


Às vezes começa em uma ideia.

Às vezes em um gesto.

Às vezes em uma pergunta simples que alguém ousa fazer: e se fosse diferente?


Nada muda de repente. A história raramente se transforma em relâmpagos. Ela se move mais como a maré: quase imperceptível enquanto sobe, até que um dia percebemos que a paisagem já não é a mesma.


É nesse espaço silencioso que vive uma das forças mais discretas da experiência humana: a imaginação.


Não a imaginação que foge da realidade, mas aquela que ousa encará-la e perguntar se ela precisa permanecer exatamente como está.


Essa pergunta muitas vezes nasce nos lugares mais inesperados. Nos poemas que parecem ingênuos. Nas ideias que parecem utópicas. Nos sonhos que parecem impraticáveis. E, não raro, na coragem de pessoas que, aos olhos de seu próprio tempo, parecem apenas idealistas — ou até um pouco loucas.


A história humana avança, muitas vezes, por causa dessas figuras.


Poetas que enxergam além do presente.

Sonhadores que se recusam a aceitar o mundo como destino.

Idealistas que insistem em imaginar um futuro diferente.

Heróis conhecidos — e outros completamente anônimos — que, em algum momento, decidiram agir como se aquilo que parecia impossível pudesse, ainda assim, acontecer.


No início, quase sempre parecem vozes isoladas. O realismo do mundo lhes responde com ceticismo. “As coisas são como são”, dizem os prudentes. “Certos conflitos são eternos”, repetem os que aprenderam a confundir hábito com verdade.


Mas a história, de tempos em tempos, surpreende os realistas.


Porque ideias que começam como murmúrios podem, pouco a pouco, encontrar outras vozes. O que era apenas imaginação passa a ser possibilidade. O que parecia utopia começa a se transformar em caminho.


Isso não significa que o progresso seja inevitável. A história também conhece regressões, violência e repetição de erros antigos. Mas algo permanece igualmente verdadeiro: o futuro nunca está completamente fechado.


Se às vezes a história nos surpreende com acontecimentos que julgávamos impossíveis, ela também nos surpreende quando ideias que pareciam apenas sonhos começam, lentamente, a ganhar forma no mundo.


Porque a realidade humana continua, em alguma medida, aberta.


É por isso que certas ideias voltam sempre. A esperança de reconciliação. O desejo de justiça. A possibilidade de que povos que hoje se olham com desconfiança possam um dia descobrir formas de convivência que hoje parecem distantes.


Nada disso nasce da certeza.


Nasce de algo muito mais delicado: a disposição de imaginar que o mundo pode ser diferente.


Porque muitas transformações começam exatamente assim — como sementes invisíveis plantadas no terreno da imaginação. Durante muito tempo parecem não produzir nada. Até que, um dia, começam silenciosamente a brotar.


E quando isso acontece, o impossível deixa de ser destino e se transforma apenas em espera.


Quem sabe, um dia acontece.



Bio


David Gertner, Ph.D., nascido no Brasil e radicado nos Estados Unidos há mais de três décadas, é professor aposentado e doutor pela Northwestern University. Escritor e ensaísta, dedica-se a refletir sobre temas como identidade, memória, ética, tecnologia e a condição humana. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, e de dois livros com lançamento previsto para 2026.


Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade



Estou ouvindo SLOW RAIN, com Steve Kuykendall na Cedro Rosa.

Repertório ®CertCon, disponível para trilhas sonoras e downloads.




 

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