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RUPTURA

há 10 horas
6 min de leitura


Houve um tempo em que alguns homens recebiam, ao nascer, o nome de Epaminondas. Talvez o mesmo tempo em que nasciam meninas chamadas Hermenegilda, Clotilde, Ofélia.


Eu acompanhei o Epa, apelido carinhoso e irônico dado pelos colegas. Ele parecia ter escapado de alguma cápsula do tempo. Nasceu muito depois daquele tempo. É jovem ainda.


Foi criado, no entanto, como se vivesse no tempo dos Epaminondas. Colarinho apertado, sapatinho de cano alto de couro com meia branca, bermudinha de alfaiataria, cabelinho Príncipe Danilo. Nada de tênis, havaianas, camisas de clubes de futebol, cabelo molhado e sacudido ou tingido.


Os pais, deliberadamente, investiram força e tempo na caricatura de uma época anacrônica para toda a família, na casinha de época no subúrbio. O menino Epaminondas era o reflexo de um modo de vida.


Ele tinha 6 anos quando entrou, por sorteio, na escola pública modelo, objeto de desejo de muitos pais e mães da região. Enquanto a maioria das famílias pensava no custo e na possibilidade de um futuro menos complicado para suas crianças, os pais do pequeno Epaminondas gostavam principalmente da ideia de que o menino estudaria latim, que ainda era disciplina obrigatória naquela escola considerada de elite na Zona Norte.


Perdido em seu tempo entre uma profusão de Marcelos, Gabriéis, Pedros, Henriques e Filipes, ser o único Epaminondas poderia ser um peso. Não foi. Desenvolveu uma personalidade que manteve a coerência com o projeto da família. O vocabulário e o modo de falar se aperfeiçoaram com o tempo, mas em consonância com a formalidade aprendida em casa. Usava a segunda pessoa, flexionava verbos como ninguém fazia, tinha referências comportamentais que a maioria absoluta dos colegas sequer imaginava que existissem fora da literatura.


Aos poucos, deixou de ser tratado como um alienígena pelos demais. Verdade que não chegou a haver bullying explícito, mas todos, obviamente, achavam o Epaminondas esquisito, pra dizer o mínimo. Não era exatamente o melhor aluno da turma, o que o tornava, não fosse o conjunto do personagem, apenas mais um dentre os alunos. Fez alguns amigos. Foram eles os responsáveis pelo apelido.


Ser chamado de “Epa” provocou inicialmente uma reação nervosa. Era informal demais, não fazia jus ao investimento histórico feito pelos pais na construção de um personagem sólido, identificado com uma suposta “época de ouro” da sociedade brasileira, marcada por uma também suposta elegância herdada da Europa.


Além do mais, “epa” é uma interjeição de espanto, tudo o que o Epaminondas não queria que ele mesmo significasse. Resistiu ao apelido, mas sabia que a resistência poderia levar a um bullying efetivo. O senso comum diz que os apelidos que “pegam” são principalmente os que desagradam. E o Epaminondas sabia disso. Resolveu não resistir mais. Era tarde. Todo mundo já o chamava assim. Até a Bárbara, paixão secreta de metade dos alunos da escola e motivo de pensamentos também na intimidade do quarto com cama de dossel e móveis de jacarandá em que o Epa dormia. Um afeto curioso, sem paixão, mas talvez seu único vínculo com a modernidade orgulhosa.


Orgulhosa porque a Bárbara era a mais moderna das meninas da escola. Cabelo pintado de rosa, uma pequena tatuagem na panturrilha direita, criticada pela escola, mas autorizada pelos pais. Era defensora de teses avançadas do feminismo, defendia amigos e amigas LGBTQIA+, participava do Grêmio da escola.


Cresceram estudando juntos. Eram opostos visuais. O cabelo cuidadosamente amarfanhado da pequena Bárbara das séries iniciais contrastava com o penteado sem fios soltos do pequeno Epa. Muito gel foi aplicado naquela cabecinha.


Foi no fim do ensino fundamental, quando as grandes paixões se manifestam, seja por astros da música, do esporte ou mesmo pelos coleguinhas da escola, que o Epa começou a notar a Bárbara de modo diferente. Se, como sabemos, nunca houve bullying radical contra ele, também é claro que todos o achavam estranho. Menos a Bárbara. Educada para entender e aceitar as diferenças entre as pessoas, achava todos normais em suas características, fossem elas quais fossem. E isso fazia da Bárbara não só um amor de pessoa como a melhor amiga de muita gente, incluindo aí os considerados esquisitos pela maioria.


Se não se tornou a melhor amiga do Epa naquela fase, foi exatamente pela resistência inicial dele ao comportamento moderno dela. Mas tratavam-se bem.


Um dia o quadro começou a mudar. A masculinidade tradicional do Epaminondas, orientada pelos pais para um caminho quase celibatário, considerando os altos valores morais impregnados no menino de um jeito pouco claro, tudo aquilo ameaçava ruir a cada cumprimento da Bárbara. E ela nunca economizou nas saudações, na sincera alegria que manifestava no contato com as pessoas. A Bárbara era pura emoção, sempre disposta a abraçar, a ouvir, a se manifestar. Tudo o que o Epa tinha aprendido sobre relacionamento interpessoal estava sob ataque.


O aniversário de 15 anos do Epaminondas foi celebrado de forma muito diferente. Além de ser um aniversário de 15 anos de um menino, coisa não muito usual no Brasil. Se antes os pais jamais tinham aberto a casa para os colegas da escola, agora resolveram que o Epa podia chamar toda a turma. Seria um rito de passagem. Nada de excessos, mas ele foi autorizado a trocar o penteado e escolher, ele mesmo, a roupa com que desejaria inaugurar a idade nova. No fim, estava vestido ainda como um menino de décadas anteriores mas, ainda assim, de modo menos rígido que aquele antes imposto pelos pais. A turma chegou toda. Tênis coloridos, vestidos curtos, camisas de clubes, camisetas engraçadas, hippies de grife e… a Bárbara!


O Epa perdeu o prumo ao ver a Bárbara num longo vestido vermelho com fendas, salto alto, maquiagem leve, mas com uma beleza que não dava pra ver na escola. Não deu pra disfarçar a gagueira. Os pais do Epa também se chocaram com a menina. E, por alguma razão, identificaram ali uma má influência.


A naturalidade com que Bárbara conversava com todos, os sorrisos soltos, os cochichos trocados com meninas e meninos ligaram o alerta dos pais do aniversariante. Ainda na festa, levaram discretamente o filho para uma conversa sobre a menina que chamava a atenção. Pela primeira vez na vida, o Epa fez uma argumentação contrária à vontade dos pais e defendeu a Bárbara, afirmando que ela era uma pessoa muito boa, amiga de todos, inclusive dele.



Apesar do choque, os pais toleraram a festa até o final, por volta da meia-noite, muito refrigerante depois.

As fotos no celular do Epa focaram principalmente a Bárbara, agora já elevada oficialmente a primeira paixão do garoto.


Iniciaram juntos o ensino médio. Os pais do Epa tinham o projeto de fazer o filho estudar numa escola técnica de edificações, para o posterior ingresso na faculdade de engenharia. A Bárbara gostava de matemática, mas gostava de todas as outras disciplinas e os pais, artistas e intelectuais, davam toda a liberdade para que ela escolhesse a carreira. E ela, para surpresa de todos, também optou por fazer engenharia.


Cursaram juntos o primeiro ano do ensino médio e foram juntos, com mais uns poucos da turma, para o curso técnico em edificações. Foi aí que se tornaram melhores amigos.


E também foi neste momento, de definição de projetos de vida, que uma investigação policial descobriu que o pai do Epa, advogado relativamente conhecido no meio jurídico e com relação próxima com políticos bastante populares, estava envolvido em uma grande fraude bancária.


A operação de busca e apreensão na casa do Epa repercutiu na escola, foi vista na televisão por todos. O agravante é que nesta fase, caminhando para o final da adolescência, os colegas eram muito mais cruéis. O bullying foi intenso e doloroso. Apenas a Bárbara era um porto seguro para o Epaminondas. A amiga o consolava todos os dias. Teria sido muito mais difícil, praticamente impossível, resistir sem ela. A mãe do Epa entendeu tudo e se aproximou da menina, ao contrário do pai, que se tornou absolutamente intransigente e quase violento, de um jeito que a família não conhecia.


O Epaminondas se revoltou. A primeira mudança foi no figurino. O vocabulário arduamente lapidado foi sendo aos poucos desconstruído. O cabelo comportado foi ficando aos poucos revolto. Ele e Bárbara chegaram mesmo a trocar beijos, os primeiros da vida do Epa, mas não houve maiores consequências. Já tinham se tornado meio irmãos. Seguiram amigos.


O que efetivamente marcou uma ruptura definitiva com o passado familiar foi a nova camisa vermelha do Epaminondas, com uma estrela no peito.

Para isso, os pais não estavam preparados.


E ele entrou em casa trazendo a Bárbara pela mão.

Informou que tinha conseguido estágio numa construtora, que pagaria as próprias contas e que pretendia fazer engenharia em outro Estado. As provas de seleção se aproximavam. Os pais se separaram após um episódio de violência doméstica com registro policial e medidas protetivas.

Epa e Bárbara passaram para uma grande universidade paulista.


Perdi o contato. Soube por amigos que o pai do Epa trabalha numa campanha eleitoral e tem certa dificuldade pra esconder a tornozeleira eletrônica que o acompanha.

A mãe se mudou para São Paulo. Quer ficar perto do filho.


E tem sido vista em exposições de arte, clubes de leitura e saraus de poesia. Também vem trocando o arcaísmo por um vocabulário mais contemporâneo e pensa em se matricular num curso superior. Na juventude, abandonou a faculdade para se casar com o advogado conservador.


Do Epa e da Bárbara eu não tive mais notícias. Mas me disseram que eles ainda são melhores amigos, ainda meio irmãos, ambos filhos únicos.


Vi num jornal, por acaso, uma foto dos dois numa manifestação política. Mal reconheci o Epa com os cabelos compridos.


Mas acho que ele usava a mesma camisa vermelha.

Rio de Janeiro, outubro de 2026.

 

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